300 mil cegos vão votar: dinastias políticas ignoram acessibilidade
Trezentas mil pessoas cegas vão às urnas em 2026. É recorde. Mas nenhuma das grandes dinastias políticas brasileiras — Sarney, Collor, Bolsonaro, Lula — fez disso bandeira.
O Tribunal Superior Eleitoral divulgou os números nesta semana. São 300.715 eleitores com cegueira registrados. Representa 0,20% do eleitorado nacional. Parece pouco? É o maior contingente já registrado na história.
O voto que ninguém vê
As urnas eletrônicas têm sistema de áudio e teclado em braille desde 2000. Vinte e seis anos depois, poucos políticos sequer mencionam o tema em palanques.
Por quê? Simples: não dá voto suficiente.
As dinastias que controlam o poder no Brasil — famílias que passam cargos de pai para filho, de tio para sobrinho — preferem investir em outdoor, jingle e showmício. Acessibilidade não enche comício. Não viraliza no TikTok.
"É o maior número de eleitores com deficiência visual já registrado", confirmou o TSE ao Metrópoles.
O negócio da política
Campanha eleitoral movimenta bilhões. Só em 2022, candidatos gastaram R$ 6,9 bilhões. Desse montante, quanto foi para garantir que 300 mil brasileiros cegos pudessem votar com dignidade?
Zero vírgula nada.
As seções eleitorais acessíveis existem. Mas são insuficientes. Muitos eleitores com deficiência visual precisam de ajuda para localizar sua zona eleitoral. Outros enfrentam mesários sem treinamento adequado.
E os políticos? Ocupados demais contando doações de campanha.
Quem lucra com a invisibilidade
A matemática é cruel: 300 mil votos não elegem um presidente. Mal elegem um deputado federal em estado grande.
Por isso, acessibilidade virou nota de rodapé. Aparece no programa de governo — página 47, letra miúda — mas desaparece no horário eleitoral.
Enquanto isso, as mesmas famílias políticas perpetuam-se no poder. Sarney governou o Maranhão por décadas, emplacou a filha. Collor voltou como senador. Os Bolsonaro elegeram três gerações. Lula tenta sua volta pelo quarto mandato indireto.
O que mudaria com 300 mil votos
Trezentos mil eleitores organizados decidem eleições estaduais inteiras. Definem governadores no Acre, Roraima, Amapá.
Mas pessoas cegas não votam em bloco. Não têm PAC — Comitê de Ação Política, como nos EUA. Não fazem lobby com malas de dinheiro.
Então continuam invisíveis. Para políticos que só enxergam números de pesquisa eleitoral, deficiência visual é problema dos outros.
A conta que não fecha
O Brasil tem, segundo IBGE, 6,5 milhões de pessoas com deficiência visual severa. Dessas, 300 mil estão aptas a votar em 2026.
Significa que 4,6% desse público exerce direito político. Nos EUA, o número passa de 60%.
A diferença? Lá, acessibilidade dá processo. Dá multa. Dá manchete. Aqui, dá em nada.
E as dinastias políticas brasileiras agradecem o silêncio. Menos fiscalização, mais liberdade para fazer campanha do jeito antigo: caro, barulhento e excludente.
Trezentas mil pessoas vão votar às cegas em 2026. E a política brasileira continuará cega para elas.