Advogado foragido: quando o poder compra impunidade no Brasil

Advogado foragido: quando o poder compra impunidade no Brasil
Foto: Metrópoles

Um advogado atropelou um motociclista de 66 anos. Voltou. Atropelou de novo. E sumiu.

A Justiça decretou prisão preventiva. A polícia vasculhou sua casa. Nada. O homem virou fumaça — como tantos outros que têm dinheiro para sumir quando a conta chega.

Enquanto isso, o motociclista luta pela vida num hospital. Ele tem nome, tem família, tem 66 anos de estrada. Mas não tem o que importa neste país: sobrenome pesado, escritório de advocacia caro, conexões certas.

O padrão que se repete

Não é caso isolado. É sistema.

Brasil tem 1,3 milhão de advogados registrados. A maioria trabalha honestamente. Mas existe uma camada — pequena, poderosa — que opera acima da lei que deveria defender.

São os mesmos círculos que atravessam gerações. Famílias tradicionais do Direito. Sobrenomes que aparecem em tribunais superiores, em ministérios, em conselhos de empresas bilionárias.

As dinastias políticas brasileiras conhecem bem esse jogo. Protegem-se mutuamente. Advogados defendem políticos. Políticos nomeiam juízes. Juízes absolvem advogados. O círculo fecha.

Quanto vale uma vida?

O motociclista atropelado provavelmente ganha salário mínimo. Talvez menos. R$ 1.412 por mês — se tiver carteira assinada.

O advogado foragido? Impossível saber com certeza. Mas basta olhar o padrão: profissionais do Direito no topo ganham entre R$ 30 mil e R$ 200 mil mensais. Têm imóveis, carros importados, contas no exterior.

Dinheiro suficiente para desaparecer. Para contratar quem precisa contratar. Para esperar o tempo fazer seu trabalho — até o caso esfriar, até testemunhas esquecerem, até a prescrição chegar.

A máquina de proteger

Quando alguém comum comete crime de trânsito e foge, a prisão vem rápido. Manchetes nos jornais locais. Família destroçada.

Quando é alguém com recursos, a história muda:

  • Advogados de elite entram em cena
  • Habeas corpus são impetrados
  • Laudos médicos aparecem
  • Testemunhas mudam versões
  • Processos se arrastam por anos

No final, muitos saem impunes. Ou pegam penas leves. Ou cumprem em regime aberto — na própria mansão.

O recado que fica

Este caso manda mensagem clara: existem dois Brasis.

Um onde você responde pelos seus atos. Outro onde você pode atropelar alguém duas vezes — literalmente — e simplesmente fugir.

A polícia continua procurando. A família do motociclista reza. A Justiça promete punição.

Mas todos sabemos como essa história costuma terminar. Especialmente quando o acusado tem título, tem dinheiro, tem conexões.

As mesmas conexões que sustentam dinastias políticas brasileiras há décadas. O mesmo sistema que protege os de cima enquanto esmaga os de baixo.

Um motociclista de 66 anos luta pela vida. Um advogado foragido está em algum lugar, protegido pela invisibilidade que só o dinheiro compra.

Bem-vindo ao Brasil real. Onde justiça tem preço. E nem todo mundo pode pagar.

Carolina Pereira Ferraz

Carolina Pereira Ferraz

Cronista de poder e dinheiro. Ex-Forbes Brasil, ex-Piauí. Especializada em rankings de riqueza, dinastias políticas e herdeiros do poder.