Angela Davis na Flip: quem paga a conta dessa festa?
Enquanto 70 milhões de brasileiros vivem na pobreza, a elite cultural se prepara para aplaudir Angela Davis em Paraty. A ativista americana, ícone do movimento negro nos EUA, será estrela da Flip 2026 — festa literária que movimenta milhões de reais em uma das cidades mais caras do Brasil.
Quem paga a conta? O Sesc. Dinheiro de contribuição patronal que poderia estar em investimentos produtivos vai bancar tendas para 700 pessoas, telões e toda a infraestrutura para receber a filósofa de 82 anos.
O circuito fechado da cultura subvencionada
A programação de 23 a 26 de julho reúne os nomes de sempre: Itamar Vieira Junior, Eliana Alves Cruz, a jornalista Flávia Oliveira mediando debates. Gente boa, sem dúvida. Mas sempre os mesmos rostos circulando pelo mesmo circuito de eventos patrocinados.
Angela Davis participará da mesa "América e África: uma conversa Atlântica". Sábado, 18h, no Sesc Caborê. Local privilegiado, público seleto, tema genérico o suficiente para não incomodar ninguém.
Ativismo de boutique
Davis ficou famosa nos anos 1970 lutando contra o sistema americano. Hoje, viaja o mundo dando palestras em eventos financiados por instituições que ela própria criticaria na juventude. O cachê? Ninguém divulga. A transparência? Zero.
O Sesc justifica: "valorizar a diversidade de vozes". Mas diversidade para quem? Para os 700 sortudos dentro da tenda ou para os moradores de Paraty que nem sabem que a festa está acontecendo?
Paraty: paraíso de quem?
A cidade histórica virou point da elite cultural brasileira. Diárias em pousadas chegam a R$ 2 mil durante a Flip. Restaurantes lotados, livrarias fazendo agosto. Enquanto isso, na periferia da cidade, falta saneamento básico.
A Flip completa 24 anos em 2026. Mais de duas décadas de debates sobre desigualdade enquanto se perpetua uma das maiores desigualdades culturais do país: o acesso.
"Vamos falar de África e América", diz a programação. Mas não vão falar de quanto custa trazer uma americana para dar palestras enquanto intelectuais brasileiros igualmente qualificados cobram um décimo do preço.
O que fica no bolso de quem?
Produtoras culturais faturam milhões com eventos como a Flip. Hotéis enchem. Restaurantes lucram. E o povo? Assiste de longe — literalmente, pelos telões na área externa.
O Sesc poderia investir esse dinheiro em bibliotecas comunitárias. Em bolsas para escritores desconhecidos. Em alfabetização. Mas prefere o glamour de trazer nomes internacionais para uma festa que só reforça o abismo cultural brasileiro.
Angela Davis merece respeito pela trajetória. Mas sua presença na Flip 2026 levanta a questão incômoda: ativismo virou produto de luxo?