Lira vai ao Senado: quem manda no Brasil muda de endereço

Lira vai ao Senado: quem manda no Brasil muda de endereço
Foto: Metrópoles

Arthur Lira controlou R$ 50 bilhões em emendas parlamentares nos últimos anos. Agora quer uma cadeira no Senado — mandato de oito anos, o dobro dos deputados, muito mais poder de veto.

O União Progressista oficializou nesta semana a candidatura do ex-presidente da Câmara ao Senado por Alagoas. Primeira vez que Lira disputa a Casa alta do Congresso. Primeira vez também que terá que ir às ruas pedir voto — até hoje, só elegeu-se deputado federal, cargo que ocupa desde 2011.

A conta é simples: enquanto o brasileiro médio ganha R$ 2.900 por mês, um senador embolsa R$ 33,7 mil. Fora verbas, assessores, passagens e a blindagem de oito anos longe das urnas.

O homem que mandou na Câmara

Lira presidiu a Câmara entre 2021 e 2024. Nesse período, decidiu quais projetos andavam e quais morriam nas gavetas. Liberou emendas para aliados. Travou pautas de adversários. O clássico jogo de poder brasiliense — mas turbinado.

Sob seu comando, o Centrão virou protagonista. Governos passam, Lira fica. Bolsonaro dependeu dele. Lula também. Quem quisesse aprovar qualquer coisa no Congresso tinha que passar pelo gabinete do alagoano.

Agora, o cálculo político mudou. No Senado, Lira ganha estabilidade. Mandato mais longo, menos pressão popular, mais tempo para articulações nos bastidores.

Alagoas, o feudo

Alagoas tem 1,7 milhão de eleitores. PIB per capita de R$ 19 mil — metade da média nacional. Taxa de analfabetismo acima de 17%, quase o triplo do país. Um estado pobre, mas rico em votos cativos.

A família Lira domina a política local há décadas. Benedito de Lira, pai de Arthur, foi governador, senador, deputado federal. A máquina está montada. Os currais eleitorais, organizados. As emendas parlamentares, distribuídas nos municípios certos.

O União Progressista aposta todas as fichas. Lira tem cacife: dinheiro, estrutura partidária, apoio do agronegócio e aliança com prefeituras do interior. A oposição precisará de milagre.

Quem manda no Brasil de verdade

A pergunta incômoda: presidentes vêm e vão. Lira permanece. Ele não governa, mas decide o que o governo pode fazer. Não assina leis, mas escolhe quais viram lei. Não aparece em horário eleitoral, mas distribui bilhões em emendas.

No Senado, esse poder se consolida. Menos holofotes, mais longevidade, influência sobre ministros do STF, controle de CPIs, sabatinas estratégicas. O Senado é onde carreiras políticas vão para durar — e lucrar.

Enquanto isso, em Alagoas, famílias vivem com menos de R$ 200 por mês. Sem saneamento básico. Sem escola decente. Mas com muito voto na urna.

Lira sabe jogar esse jogo melhor que ninguém. E agora quer jogar por mais oito anos, com salário de R$ 400 mil ao ano — pago por você, contribuinte.

A eleição de 2026 dirá se Alagoas prefere mudar ou manter quem já manda há tanto tempo. O Brasil só assiste.

Fernando Andrade Villela

Fernando Andrade Villela

Investigador financeiro. Cobre offshores, patrimônio declarado vs. real, e o cruzamento entre política e mercado.