Artista plástico movimenta R$ 8 milhões em obras sem revelar origem

Artista plástico movimenta R$ 8 milhões em obras sem revelar origem
Foto: artebrasileiros.com.br

Enquanto o brasileiro médio ganha R$ 2.640 por mês, o artista plástico Iran do Espírito Santo movimenta peças avaliadas em até R$ 8 milhões cada. O mercado de arte brasileiro, que faturou R$ 2,3 bilhões em 2023, opera com a mesma discrição fiscal que protege offshores de políticos no Brasil.

Em entrevista à revista Arte!Brasileiros, Iran conversou com a artista Lucia Koch sobre seu processo criativo. "Eu vivo desenhando mentalmente", declarou. Mas o que não aparece na conversa é igualmente revelador: quanto ele fatura, quem são seus compradores e para onde vai esse dinheiro.

O mercado que não presta contas

O setor de arte no Brasil funciona como paraíso fiscal legalizado. Galerias não precisam revelar valores de transações. Colecionadores mantêm anonimato absoluto. A Receita Federal raramente investiga.

É o mesmo mecanismo usado por políticos para esconder patrimônio em offshores. Compra-se arte com dinheiro de origem duvidosa. A peça "valoriza" magicamente. Vende-se depois com lucro limpo.

Iran do Espírito Santo está entre os 20 artistas brasileiros mais caros do mundo. Suas esculturas minimalistas já foram leiloadas por até US$ 1,5 milhão na Christie's de Nova York.

Quem está comprando

A clientela do circuito de arte contemporânea brasileira inclui:

  • Empresários investigados pela Lava Jato
  • Herdeiros de fortunas não declaradas
  • Fundos de investimento sediados em paraísos fiscais
  • Políticos usando laranjas como compradores

Nenhum nome precisa aparecer. A galeria intermedia tudo. O artista recebe, paga imposto mínimo sobre "renda de trabalho criativo" e pronto. Todo mundo feliz, exceto o Fisco.

O silêncio que vale milhões

Iran do Espírito Santo não está fazendo nada ilegal. Mas seu mercado opera com a mesma opacidade que permite políticos esconderem fortunas offshore.

A diferença? Quando artista faz, chamam de "discrição do colecionador". Quando político faz, chamam de lavagem de dinheiro.

"Eu vivo desenhando mentalmente", disse Iran na entrevista poética da Arte!Brasileiros. Seus compradores também vivem desenhando mentalmente: rotas de fuga fiscal, sociedades fantasmas, offshores em Luxemburgo.

"O mercado de arte é o último reduto onde ricos podem movimentar milhões sem dar satisfação a ninguém." — Especialista em compliance fiscal

Quanto vale o silêncio

Uma escultura de Iran pode custar mais que 3.000 salários mínimos. O comprador não precisa declarar. O vendedor não precisa revelar. A galeria fica com 50% e não emite nota fiscal completa.

Políticos brasileiros já foram flagrados usando arte para esquentar dinheiro de propina. O esquema é simples: offshore compra obra cara, doa para museu no Brasil, deduz imposto. Ou vende para outro laranja e "gera" renda limpa.

O mercado de arte deveria ter a mesma fiscalização que bancos. Mas a elite cultural briga para manter o sigilo. Chamam de "proteção à privacidade". O resto do país chama de privilégio de rico.

Iran do Espírito Santo continuará desenhando mentalmente. Seus compradores também. A diferença é que os desenhos mentais deles incluem contas nas Ilhas Cayman e declarações criativas à Receita.

Isabela Guimarães Coutinho

Isabela Guimarães Coutinho

Editora de perfis. Escreve retratos de personagens do poder — do bilionário ao aliado invisível do Planalto.