Brasil queima a mesma terra 64% das vezes desde 1985

Brasil queima a mesma terra 64% das vezes desde 1985
Foto: Metrópoles

Enquanto parlamentares se preparam para reajustar o salário Congresso 2026 — que já beirava R$ 44 mil mensais em 2025 —, o Brasil arde. E arde no mesmo lugar, repetidamente.

Um dado brutal do MapBiomas, divulgado nesta terça (21/7), expõe a face oculta do descaso: 64% de toda área queimada no país desde 1985 já pegou fogo mais de uma vez. Dois terços. A mesma terra, carbonizada em ciclos.

São 188 milhões de hectares que viraram cinzas ao longo de quatro décadas. Desse total, 120 milhões hectares arderam repetidas vezes. É como se o Amazonas inteiro tivesse sido incinerado três vezes.

O Ciclo Vicioso do Fogo

O Relatório Anual do Fogo traz um paradoxo: a área queimada em 2025 caiu 31% em relação a anos anteriores. Boa notícia? Nem tanto.

A reincidência revela um padrão. Não são incêndios naturais. São queimadas controladas que saem do controle. Pastagens expandindo. Agricultura avançando. Lucro imediato.

Quem ganha? Grandes proprietários de terra. Quem perde? O resto do país — e o bolso de quem paga a conta dos desastres ambientais.

Quanto Vale Uma Terra Queimada?

Não há número oficial sobre quanto o agronegócio lucra com expansão via fogo. Mas há pistas gordas.

A pecuária brasileira movimenta R$ 700 bilhões anuais. A soja, outros R$ 500 bilhões. Parte significativa dessa riqueza cresce sobre cinzas — literalmente.

Enquanto isso, o combate a incêndios florestais custa aos cofres públicos cerca de R$ 2 bilhões por ano. Dinheiro do contribuinte apagando fogo ateado para gerar lucro privado.

É o clássico: privatiza o ganho, socializa o prejuízo.

Quem Está Por Trás dos Números

O MapBiomas não é ONG qualquer. É consórcio financiado por Getty Foundation, Google e governo norueguês. Dinheiro internacional monitorando o que brasileiros queimam.

Por quê? Porque afeta mercados globais. Commodities brasileiras precisam passar por crivos ambientais na Europa e EUA. Queimada demais = sanção comercial.

A matemática é fria: cada hectare queimado reduz o valor da marca "Brasil" no exterior.

O Contraste Obsceno

Voltemos ao salário Congresso 2026. Enquanto o reajuste automático avança (previsão: superar R$ 46 mil), nenhum parlamentar propôs teto para lucros oriundos de áreas desmatadas ilegalmente.

Nenhum projeto de lei vinculando crédito rural a histórico livre de queimadas ganhou tração real.

O recado é claro: fogo rende. E rende bem.

A Conta Que Não Fecha

Brasil tem 851 milhões de hectares. Queimamos 188 milhões desde 1985. Mais de 20% do território nacional já virou brasa.

E 64% dessas áreas? Reincidentes. Como empresas que quebram e reabrem com novo CNPJ, mas sempre o mesmo dono.

A pergunta que Forbes faria: quanto dinheiro foi gerado nessas terras após cada queimada?

A resposta está em balanços de frigoríficos, tradings de grãos e fundos de investimento agrícola. Mas ninguém cruza os dados publicamente.

Conveniente.

"A reincidência de fogo revela uso intencional da terra, não acidente climático" — trecho do relatório MapBiomas

Enquanto o Congresso debate o próprio contracheque, o Brasil queima. E queima de novo. E de novo.

Porque dá lucro.

Carolina Pereira Ferraz

Carolina Pereira Ferraz

Cronista de poder e dinheiro. Ex-Forbes Brasil, ex-Piauí. Especializada em rankings de riqueza, dinastias políticas e herdeiros do poder.