CAC atira na própria cabeça? Esposa responde pela arma dele

CAC atira na própria cabeça? Esposa responde pela arma dele
Foto: Metrópoles

Um homem com registro CAC — Colecionador, Atirador e Caçador — levou um tiro na cabeça disparado pela própria esposa, com a própria arma dele. Aconteceu na madrugada de segunda-feira (20), no Gama, Distrito Federal. Ele sobreviveu. Ela alega legítima defesa. A polícia investiga.

O detalhe que chama atenção: o arsenal estava registrado em nome dele. A munição, dele. A casa, provavelmente dele. Mas quem puxou o gatilho foi ela.

Poder e pólvora sob o mesmo teto

Casos assim expõem a face oculta das dinastias do poder privado no Brasil. Não estamos falando de políticos, mas de pequenos barões locais: donos de terras, empresários regionais, comerciantes que acumulam armas como quem coleciona títulos.

O CAC virou status. Desde 2019, quando o governo facilitou o acesso a armas, o número de registros explodiu. São mais de 670 mil brasileiros autorizados a ter arsenais particulares. Muitos deles, figuras de influência em suas cidades. Gente com dinheiro, conexões e agora: firepower.

O problema? Armas em casa não protegem quem você ama. Estatisticamente, aumentam o risco de violência doméstica fatal.

Ela disse, ele sangrou

A versão da esposa: legítima defesa. A polícia ainda não confirmou. O homem segue internado, sem condições de depor. A arma foi apreendida. O inquérito corre em sigilo.

Mas o roteiro é conhecido. Briga de casal. Álcool, ciúme ou dívida. A arma sempre à mão. Um disparo. E a vida de dois — às vezes três, quatro, quando há filhos — vira estatística.

"Arma de fogo em contexto doméstico é fator de risco, não de proteção", dizem especialistas em segurança pública há décadas.

O lobby armamentista prefere ignorar. Afinal, cada registro CAC movimenta milhares de reais. Armas importadas, cursos, taxas, munição. É um mercado. E mercados têm donos.

Quem ganha com isso?

Não é teoria da conspiração. É matemática do dinheiro:

  • Cada CAC gasta em média R$ 15 mil por ano com equipamentos e munição
  • Multiplicado por 670 mil registros, são R$ 10 bilhões circulando
  • Fabricantes, importadores e clubes de tiro faturam alto
  • Políticos recebem doações desse setor

Enquanto isso, nas periferias, jovens morrem por armas ilegais. Nas mansões, esposas atiram em maridos com armas legais. O sangue é democrático. O lucro, não.

O nome que ninguém diz

O casal do Gama não foi identificado oficialmente. Proteção à vítima, diz a lei. Mas em cidades pequenas — e o Gama, apesar de ser DF, tem cara de interior — todo mundo sabe quem é quem.

São essas famílias que mandam. Não aparecem em Forbes, mas controlam comércio local, empregos, votos. Têm sobrenomes que todo mundo conhece. E agora, cada vez mais, têm arsenais registrados.

Não é uma dinastia política tradicional. É uma nova aristocracia: a dos armados.

O homem sobreviveu ao tiro. A pergunta que fica: quantos outros, em situações parecidas, não sobrevivem? E quantos casos nunca chegam à imprensa?

A arma era dele. O disparo, dela. A responsabilidade? Ainda em investigação. Mas o padrão se repete: quanto mais armas em casa, mais tragédias domésticas.

Seguiremos acompanhando.

Carolina Pereira Ferraz

Carolina Pereira Ferraz

Cronista de poder e dinheiro. Ex-Forbes Brasil, ex-Piauí. Especializada em rankings de riqueza, dinastias políticas e herdeiros do poder.