Canetas de R$ 1.500: elite importa remédio para emagrecer crianças

Canetas de R$ 1.500: elite importa remédio para emagrecer crianças
Foto: Metrópoles

Enquanto 33 milhões de brasileiros passam fome, a elite do país importa canetas de até R$ 1.500 por mês para fazer seus filhos emagrecerem. Agora, a ciência confirma: funciona.

Uma revisão de nove estudos publicada recentemente mostra que as famosas "canetas emagrecedoras" — injeções semanais de semaglutida e liraglutida — realmente fazem crianças e adolescentes obesos perderem peso. E com poucos efeitos colaterais graves.

O mercado de obesidade infantil movimenta bilhões globalmente. No Brasil, essas canetas chegam por importação ou são desviadas do tratamento de diabetes. Quem pode pagar, paga.

O que os estudos revelaram

A revisão científica analisou mais de 1.700 crianças e adolescentes entre 6 e 18 anos. Resultado: perda significativa de peso em comparação com placebo ou outros tratamentos.

Os medicamentos agem diretamente no cérebro, reduzindo o apetite. São os mesmos princípios ativos que viraram febre entre celebridades para emagrecer rapidamente.

Efeitos colaterais? Náusea, vômito, diarreia. Nada que assuste quem está disposto a desembolsar mais de R$ 18 mil por ano no tratamento.

Quem lucra com a obesidade infantil

A dinamarquesa Novo Nordisk, fabricante do Ozempic e Wegovy, viu suas ações dispararem 60% em 2023. A empresa vale mais de US$ 400 bilhões — maior que o PIB de Portugal.

No Brasil, a Novo Nordisk não revela números de vendas. Mas clínicas particulares em São Paulo e Rio já oferecem protocolos completos de emagrecimento infantil. Consulta inicial: R$ 800. Fora o preço das canetas.

Enquanto isso, o SUS não fornece o medicamento para obesidade. Apenas para diabetes. A fila de espera para endocrinologista pediátrico na rede pública passa de seis meses em capitais como Recife e Salvador.

O dilema ético da balança

Médicos dividem-se. De um lado, a obesidade infantil virou epidemia: 30% das crianças brasileiras estão acima do peso, segundo o Ministério da Saúde. De outro, medicar crianças de 6 anos com injeções semanais levanta questões.

"É tratar o sintoma, não a causa", afirma um endocrinologista que pediu anonimato. "Essas famílias que podem pagar as canetas também podem pagar nutricionista, psicólogo, personal trainer. Por que ir direto para a medicação?"

A resposta está no marketing. Laboratórios investem pesado em congressos médicos, patrocínios e estudos clínicos. O retorno? Um mercado estimado em US$ 100 bilhões até 2030 só em medicamentos para obesidade.

Dois brasis, duas infâncias

A ironia é cruel. Enquanto crianças da elite recebem injeções de R$ 1.500 para comer menos, 63% das crianças brasileiras vivem na pobreza, segundo a Fundação Abrinq. Muitas não têm o que comer.

O Brasil é o país onde convivem a fome e a obesidade. Ambas são doenças da desigualdade. Mas só uma tem solução que se compra em farmácia de luxo.

As canetas funcionam, dizem os estudos. A pergunta que fica: para quem?

Carolina Pereira Ferraz

Carolina Pereira Ferraz

Cronista de poder e dinheiro. Ex-Forbes Brasil, ex-Piauí. Especializada em rankings de riqueza, dinastias políticas e herdeiros do poder.