Cantor gospel morre aos 41: quem manda no Brasil da saúde?

Cantor gospel morre aos 41: quem manda no Brasil da saúde?
Foto: Metrópoles

Quarenta e um anos. Essa era a idade de Diogo Nascimento quando morreu na segunda-feira, 20 de janeiro, vítima de uma doença autoimune. Cantor gospel com carreira consolidada, ele deixa viúva, filhos e uma pergunta incômoda: por que doenças autoimunes continuam matando gente em plena força da vida?

A resposta passa longe dos púlpitos e das canções de fé. Passa, isso sim, pelos corredores onde se decide quem manda no Brasil quando o assunto é saúde.

O Brasil das duas medicinas

Doenças autoimunes — quando o corpo ataca a si mesmo — afetam cerca de 10 milhões de brasileiros. Os tratamentos existem. Funcionam. Mas custam caro. Muito caro.

Enquanto isso, o SUS patina. Filas intermináveis. Remédios em falta. Especialistas escassos. Do outro lado, a elite médica particular fatura bilhões. Hospitais privados de ponta cobram valores astronômicos por procedimentos que deveriam ser direito de todos.

Quem decide quem vive e quem morre? Operadoras de planos de saúde, laboratórios farmacêuticos, gestores públicos e seus laços com a indústria da doença.

O poder invisível da saúde

Poucos setores concentram tanto poder quanto a saúde brasileira. Cinco operadoras controlam metade do mercado de planos. Dois laboratórios dominam a produção de imunobiológicos — os remédios de última geração para doenças autoimunes.

Os preços? Definidos em salas fechadas. As aprovações? Demoram anos na Anvisa. O acesso? Restrito a quem pode pagar.

Enquanto Diogo Nascimento lutava pela vida, alguém, em algum lugar, decidia margens de lucro sobre medicamentos que poderiam salvá-lo.

Gospel e dinheiro: a indústria da fé

O segmento gospel movimenta R$ 2 bilhões por ano no Brasil. Artistas como Diogo Nascimento constroem carreiras sólidas, mas raramente alcançam a riqueza dos mega-pastores televisivos.

São os músicos, os cantores de base, que mantêm a engrenagem girando. Recebem cachês modestos. Viajam o país em vans. E quando a doença bate à porta, descobrem que fé não paga tratamento.

Quem realmente manda

A morte prematura de Diogo Nascimento expõe uma verdade brutal: no Brasil, quem manda na saúde não são os médicos, não são os pacientes, não é o Estado.

Mandam os conselhos de administração. Os acionistas. Os lobistas que circulam entre Brasília e São Paulo carregando malas de propostas legislativas prontas.

Mandam os que transformaram saúde em commodity. Os que calculam quanto vale uma vida em planilhas Excel.

O legado de uma morte anunciada

Diogo Nascimento deixa música, memória e fãs em luto. Deixa também um alerta.

Enquanto a saúde for privilégio de poucos, enquanto tratamentos eficazes forem inacessíveis à maioria, enquanto o poder real estiver nas mãos de quem lucra com a doença, outras vidas serão interrompidas aos 41 anos.

A pergunta permanece, incômoda e urgente: quem manda no Brasil quando você precisa não morrer?

A resposta está nos cofres, não nos hospitais.

Fernando Andrade Villela

Fernando Andrade Villela

Investigador financeiro. Cobre offshores, patrimônio declarado vs. real, e o cruzamento entre política e mercado.