Carro de R$ 50 mil derrota Corolla de R$ 180 mil na Europa
Enquanto você ralha para pagar R$ 180 mil num Toyota Corolla — isso quando não é uma versão híbrida que ultrapassa R$ 200 mil —, os europeus estão comprando aos montes um carrinho que custaria R$ 50 mil por aqui. E não é qualquer carro: é o líder de vendas na Espanha.
O Dacia Sandero, hatch basicão que a Renault vendeu no Brasil até 2022, acaba de bater o Corolla e todos os outros modelos no mercado espanhol, segundo dados da Anfac, a associação espanhola de fabricantes de automóveis.
A conta é simples. Na Europa, o Sandero custa cerca de 13 mil euros — uns R$ 78 mil na conversão direta. Aqui, quando foi descontinuado, saía por volta de R$ 60 mil. Mas a Renault decidiu que o brasileiro não merecia mais ter acesso a um carro econômico.
O jogo das montadoras
A estratégia é clara: vender carros mais caros, com margens mais gordas. SUVs, sedãs premium, híbridos com preço de apartamento. O Sandero tinha margem apertada. Saiu de linha.
Enquanto isso, a marca francesa empurra para o brasileiro o Kardian, SUV que começa em R$ 95 mil. Quase o dobro do que era o Sandero. Coincidência? Não existe coincidência quando se trata de lucro.
A Toyota, do outro lado, segue firme vendendo o Corolla acima de R$ 180 mil. E o brasileiro compra. Porque não tem escolha. O mercado de carros populares virou miragem.
Europa come carne, Brasil rói osso
Na Espanha, o Sandero lidera justamente por ser acessível. É transporte, não símbolo de status. Cumpre a função sem arrancar o couro do trabalhador.
Por aqui, quem manda no Brasil — montadoras, governo, todos na mesma mesa — decidiu que carro popular não dá dinheiro suficiente. Então, mataram a categoria.
Os impostos ajudam, claro. IPI, ICMS, PIS, Cofins — a lista é longa. Mas a verdade nua e crua é que as fabricantes também não fazem questão de brigar por esse mercado. Preferem vender menos unidades, mas com margens maiores.
O que sobrou
Hoje, o carro novo mais barato do Brasil é o Fiat Mobi, que começa em R$ 67 mil. Sem ar-condicionado, sem direção elétrica, sem nada. Um carro de R$ 67 mil que parece de 1995.
O Renault Kwid, outro sobrevivente, sai por R$ 73 mil na versão básica. Carros que na Europa custariam metade disso.
Enquanto isso, o Dacia Sandero segue firme lá fora, provando que é possível fazer e vender carro barato com lucro. Só não no Brasil. Aqui, o consumidor é tratado como gado: come o que colocam na frente.
A BYD chinesa chegou fazendo barulho com o King, híbrido plug-in que briga com o Corolla. Mas até ela já entendeu o jogo: King sai por R$ 179 mil. Nada de popular.
Quem decide o que você dirige
A resposta é incômoda: não é você. São as montadoras, que definem o que fabricar. É o governo, que taxa até a alma. São os bancos, que financiam a 1,99% ao mês — quase 27% ao ano.
O Sandero foi aposentado no Brasil não porque era ruim. Foi aposentado porque era barato demais. E barato não enriquece ninguém — exceto quem compra.