Casas Bahia aposta milhões em cultura popular enquanto ricos do Congresso ignoram periferia

Casas Bahia aposta milhões em cultura popular enquanto ricos do Congresso ignoram periferia
Foto: Metrópoles

Enquanto os ricos do Congresso debatem isenção fiscal para jatinhos e importados, a Casas Bahia decidiu colocar R$ 50 milhões em cima da mesa para fazer o óbvio: falar a língua de quem realmente compra no Brasil.

A nova estratégia da gigante do varejo tem nome, sobrenome e CEP: Baianinho de Mauá, João Gomes e campanhas regionalizadas que miram os 150 milhões de brasileiros da classe C, D e E. Gente que move R$ 1,2 trilhão por ano — mais que o PIB de Portugal.

O cheque e a aposta

A operação é simples, mas cara. A Casas Bahia contratou Baianinho, fenômeno do forró com 8 milhões de seguidores no Instagram, e João Gomes, que lota estádios cobrando R$ 500 mil por show. O recado: enquanto parlamentares com patrimônio médio de R$ 2,3 milhões vivem em Brasília, o dinheiro de verdade está na periferia.

Michael Klein, dono do Grupo Casas Bahia, sabe fazer contas. Sua empresa fatura R$ 23 bilhões ao ano. Não é à toa: 70% dos lares brasileiros têm renda de até três salários mínimos. São esses brasileiros — invisíveis para a elite política — que pagam as contas do varejo.

A estratégia expõe um abismo. De um lado, uma rede que lucra bilhões celebrando forró, funk e axé. Do outro, um Congresso onde 219 deputados declararam patrimônio superior a R$ 1 milhão nas últimas eleições.

"A Casas Bahia está onde o Brasil real está", disse um executivo da empresa ao Metrópoles. Tradução: longe de Brasília.

As ações regionais incluem campanhas específicas para Norte e Nordeste, regiões que concentram 56 milhões de habitantes e crescem economicamente acima da média nacional. Enquanto isso, projetos federais para essas regiões seguem engavetados por falta de "interesse político".

Quem ganha com isso

A matemática é brutal:

  • Baianinho e João Gomes faturam milhões em contratos publicitários
  • Casas Bahia reforça posicionamento e briga pelos R$ 380 bilhões do varejo de eletrodomésticos
  • Cliente da periferia se vê representado e abre a carteira
  • Ricos do Congresso continuam votando incentivos fiscais para grandes fortunas

Michael Klein, vale lembrar, tem fortuna estimada em R$ 4,8 bilhões pela Forbes. Ele entendeu: não adianta vender geladeira falando difícil. O brasileiro que precisa parcelar em 24 vezes quer ver gente como ele na propaganda.

O que está em jogo

Não se trata apenas de marketing. A Casas Bahia disputa espaço com Magazine Luiza (faturamento de R$ 46 bilhões) e gigantes do e-commerce. A cultura popular virou ativo financeiro — e ninguém avisou os parlamentares.

Enquanto a elite política debate cotas, meritocracia e "nova classe média", empresas privadas já mapearam, precificaram e monetizaram cada centavo da base da pirâmide. Com forró, funk e prestação que cabe no bolso.

A nova fase da Casas Bahia não é sobre valorizar cultura popular. É sobre faturar em cima dela. E nisso, pelo menos, a empresa é mais honesta que muito político que promete representar o povo nas urnas e some quando precisa votar aumento real do salário mínimo.

Isabela Guimarães Coutinho

Isabela Guimarães Coutinho

Editora de perfis. Escreve retratos de personagens do poder — do bilionário ao aliado invisível do Planalto.