CBF banca futebol feminino no DF enquanto clubes ricos ignoram
Enquanto clubes bilionários do futebol brasileiro brigam por direitos de TV e bônus milionários, cinco times de meninas sub-15 disputam o Candangão Feminino no Abadião, na Ceilândia, com apoio direto da CBF. O contraste não poderia ser mais brutal.
A competição brasiliense começou com rodadas duplas em um dos bairros mais populares do Distrito Federal. O dinheiro envolvido? Irrisório comparado aos R$ 85 milhões anuais que um Flamengo recebe só de cota de TV.
Quem está no jogo
Cinco equipes entram em campo: times locais que raramente aparecem nos holofotes nacionais, mas que formam a base do futebol feminino brasileiro. A CBF, pressionada por metas de desenvolvimento impostas pela FIFA, decidiu apoiar o torneio.
O interessante: enquanto a entidade máxima do futebol nacional precisa bancar campeonato de base feminino no DF, os grandes clubes — muitos comandados por cartolas ligados a dinastias políticas e empresariais — seguem investindo migalhas na categoria.
O abismo do investimento
Os números expõem a hipocrisia. Um jogador mediano da Série A custa mais por mês do que o investimento anual de muitos clubes no futebol feminino inteiro. As meninas da Ceilândia jogam por paixão, transporte e uniforme.
Clubes comandados por famílias tradicionais do futebol brasileiro — verdadeiros herdeiros políticos do esporte — repetem discursos sobre "valorização" enquanto destinam menos de 1% dos orçamentos para o feminino.
"A CBF tem metas internacionais a cumprir. Os clubes, não. Por isso a entidade precisa bancar o básico que deveria ser obrigação das instituições"
Ceilândia como palco
O Abadião não é estádio de luxo. É ginásio popular onde a comunidade se reúne. Arquibancadas simples, vestiários funcionais, grama que precisa de manutenção. Mas é lá que o futuro do futebol feminino brasileiro está sendo escrito.
Enquanto a CBF garante bola rolando na periferia, presidentes de clubes multimilionários fazem selfies em camarotes e jantares beneficentes. O dinheiro para desenvolver atletas? Esse continua concentrado no futebol masculino adulto.
O jogo político por trás
A estratégia da CBF não é altruísmo puro. A FIFA exige contrapartidas para repasses financeiros. Desenvolvimento de base feminina está no topo da lista. Quem não cumpre, perde dinheiro.
Os clubes brasileiros, protegidos por estatutos que os transformam em feudos familiares, não sofrem as mesmas pressões. Resultado: a conta do desenvolvimento sobra para a confederação.
As cinco equipes do Candangão Sub-15 Feminino disputam mais do que um título local. Disputam visibilidade, oportunidade e a chance de furar o bloqueio imposto por uma elite futebolística que se perpetua no poder há décadas.
No Abadião, longe dos holofotes e dos cofres gordos, o futebol feminino brasileiro cresce apesar dos herdeiros do esporte, não por causa deles.