Cobre vale ouro: tiroteio expõe negócio milionário de metal

Cobre vale ouro: tiroteio expõe negócio milionário de metal
Foto: Metrópoles

Dez tiros. Um corpo no chão. Uniforme falso de policial ainda vestido. O cadáver vale zero. O cobre que ele tentava roubar? Cotação internacional batendo recordes — US$ 9 mil a tonelada.

Na madrugada de terça-feira, policiais militares entraram em uma empresa que manuseia cobre em Itaquaquecetuba, Grande São Paulo. Encontraram dez criminosos no local. Troca de tiros. Um morto. Os outros fugiram. A cena: um homem fantasiado de PM caído no pátio da empresa, cercado pelo metal vermelho que cobiçava.

Enquanto isso, no Congresso Nacional, deputados e senadores — patrimônios declarados que somam bilhões — debatem projetos sobre segurança pública em gabinetes climatizados. A distância entre Brasília e Itaquá não se mede em quilômetros. Mede-se em zeros na conta bancária.

O metal que virou alvo

Cobre não é mais sucata. É commodity global. A transição energética mundial disparou a demanda. Carros elétricos precisam de 80 kg de cobre cada. Painéis solares, turbinas eólicas, infraestrutura 5G — tudo depende do metal.

Resultado: quadrilhas especializadas. Invasões a empresas. Furtos de fios em postes. Até cemitérios viraram alvo — placas e ornamentos de bronze (liga de cobre) desaparecendo.

A empresa invadida em Itaquá trabalha com reciclagem e beneficiamento. Toneladas do material ficam estocadas. Para uma quadrilha, é cofre aberto. Para a PM, é zona de guerra.

Ricos legislam, pobres morrem

Levantamento do portal Congresso em Foco mostra: 513 deputados federais declararam R$ 1,2 bilhão em bens. O top 10 dos ricos do Congresso concentra patrimônios acima de R$ 20 milhões cada.

Nenhum deles já precisou se disfarçar de policial para roubar cobre.

A ironia é brutal: enquanto parlamentares milionários discutem endurecimento de penas e redução da maioridade penal, homens morrem em Itaquá por metal que será vendido a atravessadores por mixaria. O lucro real fica com empresários do crime organizado. Sempre fica.

O criminoso morto tinha 10 comparsas. Todos fugiram. A polícia apreendeu armas e recuperou parte do material. Ninguém sabe quantas toneladas já haviam sido carregadas antes da chegada das viaturas.

O negócio por trás do sangue

Especialistas em segurança estimam que o mercado ilegal de metais não ferrosos movimenta R$ 500 milhões anuais só em São Paulo. Cobre lidera. Depois vêm alumínio e bronze.

A cadeia é sofisticada: ladrões de rua vendem para receptadores. Esses vendem para desmanches especializados. Desmanches vendem para fundições clandestinas. Fundições "lavam" o material e vendem para exportadoras legais.

No fim da linha, o cobre roubado em Itaquá pode terminar em Xangai, transformado em componente eletrônico de um iPhone.

Enquanto isso, uma mãe em algum bairro pobre da Grande SP recebe a notícia: seu filho morreu vestido de policial, tentando roubar metal avaliado em fortunas que ela nunca verá.

Os ricos do Congresso continuarão legislando. Os pobres continuarão morrendo. O cobre continuará valendo ouro. Dez tiros apenas pontuaram mais um capítulo dessa equação brutal.

Isabela Guimarães Coutinho

Isabela Guimarães Coutinho

Editora de perfis. Escreve retratos de personagens do poder — do bilionário ao aliado invisível do Planalto.