Copa do Mundo custou R$ 180 mi em energia desperdiçada
Enquanto 80 milhões de brasileiros assistiam aos jogos da Copa do Mundo, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) jogava fora energia limpa suficiente para abastecer uma cidade de 500 mil habitantes por um mês inteiro. O custo estimado: R$ 180 milhões em curtailment — o desperdício técnico de energia renovável.
O ONS encerrou em 21 de julho de 2026 a operação especial montada para a Copa. Resultado oficial: sistema estável. Resultado não oficial: bilhões em investimentos renováveis desperdiçados porque o brasileiro liga e desliga a TV ao mesmo tempo.
O Jogo Oculto da Eletricidade
Durante os 30 dias de competição, o Sistema Interligado Nacional (SIN) enfrentou oscilações brutais de carga. Intervalo de jogo: 15 milhões de chuveiros ligados simultaneamente. Gol do Brasil: queda instantânea de 3.500 megawatts — equivalente a Itaipu parando de repente.
Para evitar apagões, o ONS cortou usinas solares e eólicas. Solução técnica perfeita. Desastre econômico total.
Parques eólicos no Nordeste receberam ordem de parar turbinas em pleno vento forte. Usinas solares desligaram painéis sob sol escaldante. Tudo pago. Tudo desperdiçado.
Quem Paga a Conta
O consumidor brasileiro. Sempre.
O curtailment entra na conta de luz como "encargo setorial". Você paga pela energia que não foi gerada. Paga pela que foi gerada e jogada fora. Paga pela estabilidade do sistema que oscila porque sua geladeira liga quando o jogo começa.
Enquanto isso, as dinastias políticas brasileiras que controlam concessões elétricas desde a redemocratização seguem intocadas. Famílias que atravessaram PSDB, PT, MDB. Sobrenomes que aparecem tanto em conselhos de estatais quanto em contratos de distribuidoras privadas.
A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), repleta de indicados políticos dessas mesmas famílias, aprova os repasses. O Ministério de Minas e Energia, comandado por nomes técnicos com padrinhos conhecidos, referenda.
O Sistema que Nunca Muda
Brasil tem matriz energética 85% renovável. Deveria ser barato. É caro.
Tem capacidade instalada sobrando. Desperdiça energia em evento previsível com dois anos de antecedência.
Investe R$ 40 bilhões anuais em transmissão. Continua sem baterias de armazenamento que resolveriam o problema em uma semana.
O ONS alega que cumpriu o protocolo. Verdade. Sistema não caiu. Também verdade que o protocolo foi desenhado na década de 1990, quando energia renovável era ficção científica e dinastia política era eufemismo educado.
"A operação especial da Copa demonstrou a robustez do SIN em condições extremas de variação de carga", informou o ONS em nota técnica. Não mencionou o custo.
Quanto Vale a Estabilidade
R$ 180 milhões em um mês. R$ 2,16 bilhões ao ano se extrapolado. Suficiente para construir 500 MW de armazenamento em baterias — tecnologia que eliminaria 70% do curtailment.
Mas baterias não pagam propina. Não geram cargos em subsidiárias. Não sustentam a cadeia de comissionados que permeia o setor elétrico há 40 anos.
O Brasil saiu da Copa na semifinal. O consumidor brasileiro perde todo jogo. As dinastias nunca perdem.