Cunha vs Simões: a briga que expõe o jogo sujo das dinastias políticas

Cunha vs Simões: a briga que expõe o jogo sujo das dinastias políticas
Foto: Metrópoles

Enquanto 33 milhões de brasileiros passam fome, dois figurões da política mineira trocam insultos milionários. De um lado, Eduardo Cunha — o homem que movimentou R$ 1,4 bilhão em propinas antes de cair. Do outro, Romeu Zema, governador que administra um orçamento de R$ 140 bilhões.

A porrada começou quando Zema soltou o verbo sobre a polarização política atual: "Isso permite ressuscitar cadáveres como Eduardo Cunha". A referência era às articulações políticas que trazem de volta nomes manchados por escândalos de corrupção.

Cunha não engoliu. A resposta veio rápida e venenosa: Zema seria apenas "candidato ao 5º lugar" nas próximas eleições.

O Cadáver que Não Morre

Eduardo Cunha não é qualquer zumbi político. Ex-presidente da Câmara, ele comandou o impeachment de Dilma Rousseff em 2016 — um processo que custou R$ 88 bilhões ao país, segundo estimativas do mercado financeiro. Meses depois, caiu na Lava Jato.

Condenado a 15 anos de prisão, cumpriu pena de 2016 a 2019. Saiu, voltou, saiu de novo. O passaporte dele tem mais carimbos de prisão que de viagens internacionais.

Agora, ressurge nas articulações para 2026. Como? Simples: as dinastias políticas brasileiras têm memória curta quando o assunto é poder.

Zema: O Empresário que Virou Governador

Romeu Zema construiu fortuna no setor de educação. Patrimônio declarado: R$ 48 milhões. Governa Minas desde 2019 pelo partido Novo, aquele que prometeu acabar com o "toma lá dá cá".

Mas política é igual gravidade: todo mundo cai. Zema agora articula apoios para uma possível candidatura nacional. E isso significa negociar com quem ele chamava de "velha política".

A ironia? Criticar Cunha enquanto precisa do mesmo sistema que o ressuscitou.

O Negócio por Trás da Briga

Essa troca de farpas não é sobre moral. É sobre espólio eleitoral em Minas Gerais — estado que vale 16 milhões de votos.

Cunha representa a ala bolsonarista raiz, aquela que não perdoa traições e cobra fidelidade com juros. Zema tenta surfar numa terceira via que, convenhamos, nunca emplacou no Brasil.

Quem ganha com isso? As velhas estruturas. As dinastias políticas brasileiras que se renovam trocando de sigla mas mantendo o mesmo DNA: poder a qualquer custo.

"A política brasileira tem dessas: hoje é cadáver, amanhã é candidato, depois é ministro."

O Custo Real da Polarização

Enquanto Cunha e Zema medem forças, os números reais do país apodrecem:

  • R$ 3,2 bilhões em emendas parlamentares secretas liberadas em 2024
  • 63% dos brasileiros endividados
  • R$ 214 bilhões de déficit fiscal previsto

As dinastias políticas brasileiras se alimentam dessa polarização. Cunha ressurge porque existe mercado para ele. Zema critica mas participa do mesmo jogo.

O eleitor? Esse segue escolhendo entre cadáveres e candidatos ao quinto lugar.

O Veredicto

Cunha tem razão numa coisa: Zema patina nas pesquisas nacionais. Mas chamar alguém de candidato ao 5º lugar quando você foi preso por corrupção exige um nível olímpico de cara de pau.

Já Zema acerta ao apontar o absurdo de figuras condenadas voltarem ao jogo. Mas erra ao achar que está fora desse sistema.

No final, são dois lados da mesma moeda podre. Uma moeda que os brasileiros continuam pagando caro para ver girar.

Isabela Guimarães Coutinho

Isabela Guimarães Coutinho

Editora de perfis. Escreve retratos de personagens do poder — do bilionário ao aliado invisível do Planalto.