De Paul culpa conspiração por derrota: bastidores do poder no futebol

De Paul culpa conspiração por derrota: bastidores do poder no futebol
Foto: ge.globo.com

Enquanto jogadores de futebol reclamam de "conspirações" depois de perder uma final, o dinheiro real que move o esporte continua fluindo por canais que fariam qualquer teoria parecer brincadeira de criança.

Rodrigo De Paul, meio-campista argentino que fatura 4 milhões de euros anuais no Atlético de Madrid, foi às redes sociais nesta segunda-feira chorar pela derrota na final da Copa do Mundo contra a Espanha. O discurso: "teorias da conspiração" contra a Argentina.

"Nossos sorrisos incomodam, nosso jeito os irrita", escreveu o camisa 7. Tradução: perdemos e alguém tem culpa além de nós.

O que realmente irrita

Teorias da conspiração no futebol são fichinha perto dos esquemas financeiros reais que dominam o esporte. Enquanto De Paul reclama de arbitragem, empresários movimentam bilhões em:

  • Contratos de direitos de imagem em paraísos fiscais
  • Transferências inflacionadas entre clubes do mesmo dono
  • Apostas esportivas legais e ilegais que movem US$ 500 bilhões anuais
  • Patrocínios de empresas baseadas em jurisdições offshore

A FIFA, entidade que organiza a Copa, já foi epicentro de escândalos de corrupção que resultaram em prisões e delações. Dinheiro sujo, propina, lavagem — tudo documentado pelo FBI em 2015.

Quem ganha com o show

A Copa do Mundo de 2026 deve gerar US$ 11 bilhões em receita para a FIFA. Desse bolo, apenas 9% vai para os jogadores via premiações para seleções.

O resto? Patrocinadores, emissoras, federações. Uma complexa rede onde o dinheiro raramente para em contas bancárias convencionais.

"Nosso jeito os irrita", disse De Paul. Mas o que realmente irrita é ver atletas milionários chorando por teorias enquanto estruturas financeiras opacas comandam o jogo.

Não é conspiração quando está nos documentos. Empresários do futebol usam as mesmas rotas offshore que políticos e empresários investigados pela Lava Jato já utilizaram: Ilhas Virgens Britânicas, Panamá, Malta.

A verdadeira partida

De Paul ganhou notoriedade global jogando na Argentina, país que enfrenta inflação de três dígitos e onde 40% da população vive abaixo da linha da pobreza. Ele próprio está seguro: seu contrato o coloca no 1% mais rico do planeta.

As "teorias da conspiração" que ele menciona? Foram sobre possíveis favorecimentos arbitrais para a Argentina durante a Copa — nada comprovado, apenas ruído de torcedores rivais.

Conspiração de verdade é rastrear para onde vão os US$ 11 bilhões da FIFA. Ou entender por que tantos contratos de jogadores passam por escritórios em países com sigilo bancário garantido.

A delegação argentina já voltou para Buenos Aires. De Paul continuará ganhando seus milhões na Europa. E o futebol seguirá sendo, simultaneamente, o esporte mais amado do mundo e um dos negócios mais opacos do capitalismo global.

Teorias? Não. Apenas segredos muito bem guardados.

Fernando Andrade Villela

Fernando Andrade Villela

Investigador financeiro. Cobre offshores, patrimônio declarado vs. real, e o cruzamento entre política e mercado.