Doce de leite a R$ 60: elite de BH paga até 51% a mais

Doce de leite a R$ 60: elite de BH paga até 51% a mais
Foto: Metrópoles

Enquanto o salário mínimo sobe 7,5%, o doce de leite no Mercado Central de Belo Horizonte dispara 25% em um ano. Para quem tem dinheiro, não faz diferença. Para o resto, é sobremesa cancelada.

Pesquisa do portal MercadoMineiro jogou luz sobre o abismo: doces típicos mineiros subiram até 51% em 12 meses. O quilo do doce de leite tradicional, que custava em média R$ 48 em 2024, agora beira os R$ 60 em alguns boxes do cartão-postal turístico da capital mineira.

Quem Lucra com a Alta

A conta é simples. Produtores de leite pressionam preços. Comerciantes do Mercado Central repassam com margem generosa. E quem paga? O consumidor final — turista desavisado ou mineiro saudosista disposto a desembolsar.

A variação entre estabelecimentos chega a impressionantes 47,6%. Traduzindo: dois boxes vendem o mesmo produto com quase metade de diferença no preço. É o poder da localização, do nome, da fama. É Brasília em miniatura — quem tem acesso paga menos, quem não tem se vira.

O Mapa da Desigualdade no Pote

O levantamento expõe algo maior que inflação de sobremesa. Revela a geografia do poder de compra. Os boxes mais conhecidos, com clientela fiel e turistas que não pechincha, cobram o que querem. Os menores, na periferia do mercado, brigam por preço.

Outras delícias mineiras seguem a mesma trajetória:

  • Goiabada cascão: alta de 30%
  • Pé de moleque: aumento de 28%
  • Rapadura: subiu 22%

O padrão se repete. Produtos artesanais, que deveriam ser patrimônio cultural acessível, viram artigo de luxo. A tradição mineira agora tem preço de importado.

Poder e Dinheiro na Balança

O Mercado Central de BH movimenta milhões. São 400 lojas, fluxo diário de milhares de pessoas, palco de negócios que vão muito além do doce de leite. Há poder concentrado ali — associações de comerciantes, fornecedores exclusivos, acordos de bastidor.

Quando o preço dispara 25% enquanto a inflação oficial mal passa de 4%, alguém está lucrando gordo. Não é o produtor rural, que continua quebrando. Não é o consumidor, que paga mais por menos. É o intermediário — sempre ele.

A lógica é a mesma de Brasília: quem está no meio da cadeia, quem controla acesso, quem tem informação privilegiada, embolsa a diferença. O mercado físico replica o mercado político.

Turismo de Elite

Belo Horizonte aposta no turismo gastronômico. O Mercado Central é vitrine obrigatória. Mas a que preço? Quando um quilo de doce de leite custa mais que um dia de trabalho de milhões de brasileiros, o projeto exclui por design.

A conta não fecha para quem vive de salário. Fecha — e muito bem — para quem lucra com a operação. Comerciantes relatam margens saudáveis mesmo com custos maiores. Tradução: o repasse ao consumidor foi além do necessário.

É o capitalismo de compadrio em versão açucarada. Mesma lógica, embalagem diferente. O doce virou amargo para quem está do lado errado da desigualdade.

"O Mercado Central sempre foi caro, mas agora está proibitivo", resume comerciante que preferiu não se identificar.

Enquanto isso, em Brasília, ninguém perde o sono com doce de leite a R$ 60. Lá o cardápio tem outros zeros à direita.

Fernando Andrade Villela

Fernando Andrade Villela

Investigador financeiro. Cobre offshores, patrimônio declarado vs. real, e o cruzamento entre política e mercado.