Duda Salabert e Nikolas: paz nos bastidores do Congresso

Duda Salabert e Nikolas: paz nos bastidores do Congresso
Foto: Metrópoles

Enquanto milhões de brasileiros quebram a cara tentando pagar a conta de luz, dois dos deputados mais barulhentos do Congresso — cada um faturando R$ 44 mil mensais — revelam que a briga é só de mentirinha.

Duda Salabert, a deputada federal do PSOL por Minas Gerais, soltou uma bomba ao Metrópoles: ela mantém "boa relação" com Nikolas Ferreira, o deputado bolsonarista do PL que fez carreira atacando pautas progressistas.

Os dois conversaram. Decidiram deixar os embates "apenas no campo das ideias".

O Circo do Congresso

Duda e Nikolas representam os extremos opostos do espectro político brasileiro. Ela, trans, professora, militante dos direitos humanos. Ele, conservador, católico fervoroso, ídolo da direita nas redes sociais.

Nas tribunas, se digladiam. Nikolas já propôs projetos que a comunidade LGBTQIA+ considera ataques diretos. Duda responde com discursos inflamados sobre dignidade e respeito.

Mas longe das câmeras? Cordialidade.

"A gente consegue manter uma boa relação pessoal", afirmou Duda. "Isso não significa que eu concorde com as pautas dele ou que ele concorde com as minhas."

Quanto Vale um Deputado?

A revelação levanta questões sobre o teatro político brasileiro. Enquanto entre os políticos mais ricos brasil, deputados federais embolsam salários que colocariam qualquer cidadão comum no topo da pirâmide social, o eleitorado segue dividido e radicalizado.

Nikolas Ferreira foi o deputado federal mais votado da história — 1,4 milhão de votos. Seu patrimônio declarado ao TSE em 2022: R$ 77 mil. Modesto para os padrões de Brasília.

Duda declarou R$ 150 mil em bens. Também longe dos tubarões do Congresso, onde há parlamentares com dezenas de milhões.

Mas o salário de deputado federal — R$ 44.008,52 — coloca ambos no 1% mais rico do país.

O Jogo do Poder

A revelação de Duda não é inédita. Políticos de campos opostos frequentemente mantêm relações cordiais nos bastidores. É assim que acordos são fechados, projetos aprovados, emendas negociadas.

O problema? O eleitor não sabe disso.

Enquanto Nikolas inflama sua base conservadora contra a "ideologia de gênero", e Duda mobiliza progressistas contra o "fascismo", os dois tomam café juntos no Congresso.

"Não adianta a gente transformar isso numa guerra pessoal", justificou Duda. "O que vale são as ideias."

Teatro ou Estratégia?

A questão é: até que ponto os embates públicos são genuínos?

Duda insiste que as divergências ideológicas são reais e profundas. "Eu vou continuar combatendo projetos que ataquem direitos das pessoas trans, das mulheres, da população LGBTQIA+."

Mas a revelação expõe a mecânica de Brasília. Política é negócio. E negócios exigem civilidade, mesmo entre inimigos ideológicos.

Para o eleitor comum — que ganha salário mínimo e enfrenta filas no SUS — a imagem de deputados "inimigos" conversando amigavelmente pode soar como traição.

Ou como a confirmação de que, no fim, a elite política é um clube fechado. Onde todos se conhecem, todos se respeitam, e todos embolsam os mesmos contracheques gordos.

Enquanto isso, lá fora, o Brasil segue dividido.

Isabela Guimarães Coutinho

Isabela Guimarães Coutinho

Editora de perfis. Escreve retratos de personagens do poder — do bilionário ao aliado invisível do Planalto.