A elite gamer: headsets de R$ 500 enquanto Brasil busca offshore

A elite gamer: headsets de R$ 500 enquanto Brasil busca offshore
Foto: olhardigital.com.br

Enquanto o Congresso debate offshore de políticos no Brasil e a Receita Federal aperta o cerco sobre contas não declaradas no exterior, o mercado de periféricos gamer movimenta cifras que fariam qualquer investigador parar para olhar. Headsets com tecnologia surround 7.1 custam entre R$ 300 e R$ 800 — mais que o salário mínimo vigente.

A Amazon, gigante que faturou US$ 575 bilhões globalmente em 2023, empurra duas promoções que expõem o abismo econômico brasileiro: produtos de "entrada" no universo gamer que custam o equivalente a uma semana de trabalho do brasileiro médio.

Quem lucra com o som virtual

O Redragon Zeus Pro H510-PRO, modelo sem fio com áudio 7.1, aparece como carro-chefe das ofertas. A marca chinesa Redragon pertence ao conglomerado que também controla a Havit, empire de periféricos que fatura US$ 200 milhões anuais apenas no mercado latino-americano.

A tecnologia surround 7.1 — que simula sete caixas de som e um subwoofer ao redor do usuário — é, na prática, um truque de software. Não há sete alto-falantes dentro do headset. São dois, como qualquer fone comum, processados digitalmente para criar ilusão espacial.

Mesmo assim, gamers pagam o premium. E a Amazon embolsa sua comissão de 15% a 20% sobre cada venda.

O mercado que cresce na crise

Dados da Newzoo mostram que o Brasil tem 72 milhões de gamers. Desses, apenas 8% investem em equipamentos considerados "premium" — categoria onde entram os headsets surround.

Isso representa 5,7 milhões de consumidores dispostos a pagar R$ 500 ou mais por periféricos. Um mercado de R$ 2,8 bilhões anuais, segundo a PGB (Pesquisa Game Brasil 2024).

Para comparação: é quase o valor que o governo federal destinou ao Bolsa Família em janeiro deste ano.

Offshore e periféricos: a conexão improvável

A relação entre headsets gamer e offshore de políticos brasileiros não é direta — mas simbólica. Enquanto parlamentares escondem patrimônio em paraísos fiscais (tema que voltou à tona com as investigações da CPI das Offshores), empresas estrangeiras faturam bilhões vendendo eletrônicos importados sem produzir um parafuso em solo nacional.

A Redragon, assim como concorrentes Logitech e HyperX, opera sob regime de importação com benefícios fiscais questionáveis. Produtos entram pela Zona Franca de Manaus com isenções que, segundo o TCU, custam R$ 26 bilhões anuais aos cofres públicos.

Políticos investigados por offshore incluem nomes de todos os espectros: do PSDB ao PT, do PL ao PDT. A lista é apartidária — como o gosto por headsets caros.

"O consumidor brasileiro paga imposto de importação, ICMS, PIS, Cofins. No final, um produto de US$ 50 vira R$ 400 na prateleira. E quem ganha não é o Brasil." — Especialista tributário ouvido off the record

Promoção ou propaganda?

As "promoções" anunciadas pela Amazon geralmente significam descontos sobre preços inflados. O Redragon Zeus Pro, que aparece por R$ 479 "em oferta", já foi vendido a R$ 420 em novembro passado, segundo histórico do Zoom.

A segunda opção promovida — modelo com fio da mesma marca — custa R$ 289. Ainda assim, três vezes o preço de um headset comum sem a buzzword "7.1" estampada.

Para o gamer, é investimento em imersão. Para a indústria, é margem de lucro. Para o fisco brasileiro, é oportunidade perdida.

Offshore continua sendo investigado. Headsets continuam sendo vendidos. O Brasil continua assistindo — com ou sem áudio surround.

Fernando Andrade Villela

Fernando Andrade Villela

Investigador financeiro. Cobre offshores, patrimônio declarado vs. real, e o cruzamento entre política e mercado.