Envenenamento em massa no DF: quem pagará a conta?

Envenenamento em massa no DF: quem pagará a conta?
Foto: Metrópoles

Dez técnicos de enfermagem foram parar no hospital após intoxicação por psicotrópicos no Distrito Federal. Dois estão na sala vermelha — o nome elegante para "à beira da morte" na linguagem hospitalar. Enquanto isso, os filhos e netos dos donos do poder seguem suas carreiras blindadas, longe das consequências reais da gestão pública que herdaram.

O valor? Impossível calcular. Não em dinheiro — isso o Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do DF (Iges-DF) vai contabilizar depois. Falamos do custo humano de um sistema onde servidores da linha de frente pagam com a própria saúde pelos erros de quem administra de cima.

O veneno e os vulneráveis

A coluna Na Mira, do Metrópoles, furou o silêncio oficial: dois dos profissionais de saúde estão em estado crítico. O Iges-DF confirmou os dez casos de intoxicação, mas mantém discrição sobre detalhes. Discrição — palavra favorita de quem não quer explicações.

Psicotrópicos são substâncias controladas. Remédios tarjados, registrados, rastreáveis. Alguém autorizou a entrada. Alguém liberou o uso. Alguém não fiscalizou. E dez pessoas pagaram o preço.

Quem está no comando?

O Brasil cultiva uma tradição peculiar: transformar política em negócio de família. Sobrenomes circulam pelo Congresso como ações na bolsa. Pais passam mandatos para filhos. Filhos indicam primos. Primos protegem cunhados.

No Distrito Federal, berço do poder federal, a dinástica política é ainda mais evidente. As mesmas famílias que decidem orçamentos bilionários raramente pisam nos hospitais públicos que fingem administrar. Seus herdeiros estudam fora, tratam-se em clínicas particulares, herdam mandatos como quem herda imóveis.

Enquanto isso, técnicos de enfermagem — profissionais que ganham entre R$ 2 mil e R$ 4 mil por mês — enfrentam plantões exaustivos em unidades de saúde sucateadas. São eles que seguram o sistema nas costas. São eles que agora estão intoxicados.

O custo real da herança política

Cada herdeiro político no Brasil carrega um portfólio invisível: quantos servidores adoeceram sob sua gestão? Quantas verbas desviadas? Quantos contratos superfaturados assinados por parentes?

Não é teoria conspiratória. É matemática simples:

  • Poder concentrado em poucas famílias
  • Fiscalização comprometida por laços de parentesco
  • Servidores de base sem voz política
  • Resultados: intoxicações, mortes, colapsos

O Iges-DF é uma autarquia relativamente nova, criada para "modernizar" a gestão de saúde no DF. Modernizar, no jargão político, geralmente significa terceirizar responsabilidades mantendo os mesmos comandantes de sempre.

Quem responde?

Até o fechamento desta matéria, nenhum gestor se pronunciou nominalmente sobre o caso. Nenhum secretário deu a cara. Nenhum herdeiro político que ocupa cargo de confiança assumiu responsabilidade.

Dois técnicos de enfermagem lutam pela vida na sala vermelha. Eles não herdaram mandatos. Não têm sobrenomes poderosos. Não possuem advogados de R$ 50 mil a hora.

Eles têm apenas sua força de trabalho — a mesma que agora está envenenada num leito de hospital público.

A conta sempre chega. A pergunta é: quem vai pagar?

Isabela Guimarães Coutinho

Isabela Guimarães Coutinho

Editora de perfis. Escreve retratos de personagens do poder — do bilionário ao aliado invisível do Planalto.