Fachin prega 'justiça sem medo' em Angola enquanto dinastias políticas brasileiras prosperam

Fachin prega 'justiça sem medo' em Angola enquanto dinastias políticas brasileiras prosperam
Foto: Metrópoles

Enquanto famílias políticas brasileiras plantam filhos, sobrinhos e cônjuges em tribunais e prefeituras há décadas, o ministro do Supremo Tribunal Federal Edson Fachin viajou 8 mil quilômetros até Luanda, Angola, para ensinar estudantes africanos sobre "decidir sem medo".

A ironia é pesada.

O discurso de R$ 40 mil por mês

Fachin, que recebe mensalmente cerca de R$ 40 mil dos cofres públicos, pregou aos angolanos que "um Judiciário independente tem juízes fortes, com autonomia, que não cedem a pressões".

Bonito no papel. Constrangedor na prática.

Porque enquanto o ministro exporta lições de independência, o Brasil cultiva um jardim de dinastias políticas que transformaram a toga e a faixa presidencial em herança de família.

O império das famílias no poder

Os Sarney dominam o Maranhão há quatro décadas. Os Barbalho comandam o Pará desde os anos 1980. Os Calheiros reinam em Alagoas. Os Magalhães controlaram a Bahia por gerações.

No Judiciário, a história se repete com verniz de legalidade.

Filhos de desembargadores viram desembargadores. Netos de ministros entram para tribunais superiores. Sobrinhos de juízes passam em concursos onde o pai do colega é o examinador.

Não é ilegal. Mas cheira mal.

Angola como espelho

A escolha de Angola para o discurso tem seu próprio peso simbólico. O país africano é governado pelo MPLA desde 1975. O atual presidente, João Lourenço, substituiu José Eduardo dos Santos, que ficou 38 anos no poder.

Dos Santos colocou a filha Isabel à frente da petrolífera estatal Sonangol. Ela se tornou a mulher mais rica da África, com fortuna estimada em US$ 2 bilhões.

Coincidência ou não, soa familiar.

O que Fachin não disse

Em seu discurso aos estudantes angolanos, o ministro não mencionou casos brasileiros recentes onde a "independência" judicial foi questionada.

Não falou sobre juízes que cedem a pressões políticas para não perder promoções.

Não citou desembargadores flagrados em esquemas de venda de sentenças.

Não comentou sobre o filho do presidente que se elegeu com 1 milhão de votos depois de 27 anos como vereador discreto.

A conta que não fecha

A viagem de Fachin a Angola foi paga com dinheiro público. Passagens, hospedagem, diárias, segurança.

Enquanto isso, o brasileiro comum espera anos por uma decisão judicial. Processos se arrastam. Recursos se acumulam. A justiça não chega.

Mas o discurso sobre "decidir sem medo" vai até a África.

O povo brasileiro continua decidindo com fome. E com medo de não conseguir pagar as contas no fim do mês.

Enquanto as dinastias políticas — no Executivo, no Legislativo e, sim, no Judiciário — seguem decidindo quem fica com o quê.

Sem medo nenhum.

Carolina Pereira Ferraz

Carolina Pereira Ferraz

Cronista de poder e dinheiro. Ex-Forbes Brasil, ex-Piauí. Especializada em rankings de riqueza, dinastias políticas e herdeiros do poder.