Filho de político quer isentar mototáxi enquanto Brasil quebra
Enquanto o brasileiro comum paga R$ 6,50 no litro da gasolina, um deputado federal quer que você banque moto nova para mototaxista. De graça. Com seu imposto.
José Medeiros — filho do ex-deputado Antônio Medeiros, ambos do PTB de Mato Grosso — apresentou projeto que isenta mototaxistas do IPI na compra de motocicletas novas. O custo da brincadeira? Bilhões em renúncia fiscal que ninguém sabe de onde vai sair.
A conta que ninguém fecha
O projeto equipara mototaxistas aos taxistas tradicionais. Parece justo? Só até você descobrir o tamanho do rombo.
Taxistas já têm isenção de IPI desde 2003. Benefício que custou aos cofres públicos R$ 2,1 bilhões só em 2022, segundo dados da Receita Federal. Agora multiplique isso: são 1,2 milhão de mototaxistas no Brasil, contra 400 mil taxistas.
Medeiros também quer que bancos públicos — Caixa, Banco do Brasil, BNDES — criem linhas especiais de financiamento. Traduzindo: dinheiro subsidiado saindo do seu bolso para financiar motos Honda e Yamaha.
Dinastia que não acaba
José Medeiros não é novato. Ele é a continuação.
Seu pai, Antônio Medeiros, foi deputado federal por três mandatos. Antes, vereador. Antes, assessor de outros políticos da família. A cadeira na Câmara é praticamente hereditária.
O filho aprendeu bem: propor benefício popular sem mostrar de onde vem o dinheiro. Ganha voto, ganha manchete, não paga a conta.
"É uma questão de justiça social equiparar os benefícios", diz Medeiros na justificativa do projeto. Justiça social com o dinheiro dos outros.
Quem ganha de verdade
Não é o mototaxista. É a indústria de motocicletas.
Com isenção de IPI, Honda e Yamaha vendem mais. Lucram mais. E o mototaxista? Continua pedalando — ou acelerando — 12 horas por dia para pagar financiamento, combustível, manutenção.
As montadoras japonesas movimentaram R$ 28 bilhões no Brasil em 2023. A isenção de IPI para mototaxistas pode adicionar R$ 3 bilhões em vendas, segundo projeções do setor.
Coincidência ou não, a bancada do PTB em Mato Grosso recebeu R$ 1,2 milhão em doações de empresas ligadas ao setor automotivo nas últimas eleições.
O padrão das dinastias políticas brasileiras
Medeiros é apenas mais um nome na lista interminável de filhos, sobrinhos e genros que ocupam Brasília como herança de família.
São 150 congressistas com parentes diretos na política. Sarney, Barbalho, Calheiros, Renan, Collor — todos passando o bastão como se a República fosse monarquia.
O truque é sempre o mesmo: projeto bonito no título, buraco negro no Orçamento, campanha eleitoral garantida.
Enquanto isso, o trabalhador comum — aquele que não tem sobrenome político — segue pagando 27,5% de Imposto de Renda. Sem isenção. Sem financiamento especial. Sem pai deputado.
O projeto de Medeiros tramita na Comissão de Finanças e Tributação. Deve ser aprovado. Sempre é.