Flip bancada pelo Sesc: R$ 40 mi para estrelas internacionais

Flip bancada pelo Sesc: R$ 40 mi para estrelas internacionais
Foto: agenciabrasil.ebc.com.br

Enquanto a maioria dos brasileiros nunca pisou numa livraria, o Sesc prepara uma festa literária em Paraty com orçamento estimado em R$ 40 milhões. A 24ª edição da Flip, de 23 a 26 de julho, traz a ativista americana Angela Davis e o Nobel de Literatura nigeriano Wole Soyinka como principais atrações.

O dinheiro vem do Sistema S — contribuição compulsória que sai da folha de pagamento das empresas brasileiras. Segundo fontes do setor, o custeio anual do Sesc ultrapassa R$ 6 bilhões. A Flip representa uma fatia significativa do orçamento cultural da entidade.

Quem Paga a Conta

Angela Davis, 82 anos, cobra até US$ 50 mil (R$ 280 mil) por palestra em circuitos internacionais. Wole Soyinka, primeiro africano a ganhar o Nobel de Literatura em 1986, movimenta cifras semelhantes. Os cachês exatos não foram divulgados pelo Sesc.

A apresentação conjunta dos dois acontecerá numa tenda para 700 pessoas no Sesc Caborê, sábado 25, às 18h. Tema: "América e África: uma conversa Atlântica". Telões do lado de fora para quem não conseguir lugar.

Enquanto isso, dinastias políticas brasileiras como os Sarney, os Calheiros e os Barbalho — que controlam há décadas as verbas culturais em seus estados — observam com inveja a máquina do Sistema S. Diferente deles, o Sesc não precisa passar pelo crivo do Congresso para gastar.

O Cardápio Literário

Além das estrelas internacionais, a programação inclui Itamar Vieira Junior e Eliana Alves Cruz, autores brasileiros consagrados. A diferença de cachê entre nacionais e estrangeiros pode chegar a 10 vezes, segundo profissionais do mercado editorial.

Paraty se transformou na Cannes da literatura brasileira. Hotéis-boutique cobram diárias de R$ 3 mil durante o evento. Restaurantes lotam com editores, agentes literários e celebridades. O povo da cidade, descendente de caiçaras, trabalha nos bastidores.

Quem Controla o Jogo

O Sesc pertence formalmente à Confederação Nacional do Comércio, presidida por José Roberto Tadros. A entidade administra uma fortuna sem paralelo no terceiro setor brasileiro:

  • Mais de 600 unidades pelo país
  • Orçamento anual superior ao de secretarias estaduais de cultura
  • Autonomia total sobre investimentos culturais
  • Nenhuma prestação de contas pública detalhada

A Flip nasceu em 2003 por iniciativa da produtora inglesa Liz Calder. Em 2013, após a morte da fundadora, o Sesc assumiu a realização. Desde então, o orçamento multiplicou.

O Que Está em Jogo

Angela Davis tornou-se ícone global dos movimentos negro e feminista desde os anos 1970. Wole Soyinka passou anos preso por criticar ditaduras africanas. Ambos vendem livros, enchem auditórios, movimentam fortunas.

A questão não é o mérito intelectual dos convidados. É quanto custa essa operação — e quem paga. Trabalhadores brasileiros contribuem compulsoriamente para o Sistema S sem poder escolher se preferem uma palestra de Angela Davis ou melhor acesso a bibliotecas públicas nos seus bairros.

Procurado, o Sesc não informou o orçamento total do evento nem os valores de cachês. "Política interna", segundo a assessoria de imprensa. Política que movimenta milhões enquanto 70% dos municípios brasileiros não possuem uma livraria sequer.

A Flip acontece. Os hotéis faturam. Os escritores palestram. E o dinheiro do Sistema S continua fluindo, longe dos olhos de quem realmente paga a conta.

Fernando Andrade Villela

Fernando Andrade Villela

Investigador financeiro. Cobre offshores, patrimônio declarado vs. real, e o cruzamento entre política e mercado.