Free Flow na Imigrantes: quem lucra com pedágio eletrônico?

Free Flow na Imigrantes: quem lucra com pedágio eletrônico?
Foto: canaltech.com.br

Enquanto você rala para pagar o IPVA, alguém está faturando milhões com cada cancela — ou melhor, com cada pórtico eletrônico — que você atravessa sem nem perceber.

O novo pedágio Free Flow da Rodovia dos Imigrantes acaba de sofrer sua primeira derrota antes mesmo de entrar em operação. O governo de São Paulo recuou e vai mudar a localização de um dos pórticos eletrônicos que seria instalado no km 29.

A razão? Pressão popular de moradores de São Bernardo do Campo que não aceitaram pagar tarifa diária só para ir ao centro da própria cidade.

O Jogo do Bilhão

Vamos aos números que ninguém te conta com clareza.

Cada pórtico desses representa uma máquina de fazer dinheiro funcionando 24 horas por dia, sete dias por semana. Sem operadores, sem cancelas, sem custo de mão de obra. Puro lucro automatizado.

O sistema Free Flow — esse nome bonito para "você paga sem perceber" — funciona com câmeras de reconhecimento de placa. Passa, registra, cobra. Simples assim.

E lucrativo assim.

David Contra Golias Paulista

Os moradores de São Bernardo se organizaram. Fizeram barulho. Pressionaram. E conseguiram o impossível: fazer o governo estadual voltar atrás.

A localização exata do novo pórtico ainda não foi definida. O que importa aqui é o precedente: pela primeira vez, o cidadão comum venceu a burocracia do pedágio eletrônico.

Mas a pergunta que fica é: quantos outros bairros vão ser penalizados sem ter a mesma capacidade de organização?

Quem Ganha com Isso

A concessão de rodovias em São Paulo movimenta cifras que fariam qualquer político mais rico do Brasil corar de inveja.

Enquanto o trabalhador briga por centavos no combustível, as concessionárias rodoviárias registram lucros recordes ano após ano. É dinheiro público virando lucro privado com aval do Estado.

O Free Flow é vendido como modernização. E é. Mas modernização para quem?

Para você, que vai pagar de qualquer jeito? Ou para a empresa que vai cortar custos operacionais e aumentar margem de lucro?

O Precedente Perigoso

São Bernardo venceu uma batalha. Mas a guerra está apenas começando.

Dezenas de outros pórticos estão planejados para o sistema rodoviário paulista. Cada um estrategicamente posicionado para maximizar o faturamento — ops, para "modernizar o sistema de cobrança".

A mudança de localização do pórtico do km 29 prova uma coisa: a localização original foi pensada para arrecadar o máximo possível, não para ser justa.

Se fosse justa desde o início, não precisaria de mobilização popular para mudar.

"Independentemente da nova localização, a medida evita que moradores sejam penalizados com tarifas diárias apenas para se deslocarem à área central do próprio município."

Traduzindo: iam cobrar pedágio de quem sai de casa para trabalhar na própria cidade. Até o governo admitiu que seria sacanagem.

E Agora?

A conta vai chegar. Sempre chega.

A diferença é que agora ela vem sem aviso, sem cancela, sem chance de você escolher outra rota. É pegar ou pagar — literalmente.

Os moradores de São Bernardo mostraram que organização popular ainda funciona. Resta saber se outros bairros, outras cidades, vão ter o mesmo fôlego para brigar contra um sistema desenhado para ser invisível e inevitável.

Enquanto isso, alguém está contando os milhões que cada pórtico vai render. E esse alguém definitivamente não é você.

Isabela Guimarães Coutinho

Isabela Guimarães Coutinho

Editora de perfis. Escreve retratos de personagens do poder — do bilionário ao aliado invisível do Planalto.