Globo fatura milhões com morte de Preta Gil em projeto póstumo

Globo fatura milhões com morte de Preta Gil em projeto póstumo
Foto: revistaquem.globo.com

Um ano depois da morte de Preta Gil, a Globo transforma tragédia em produto. O Copacabana Palace abriu as portas na noite de segunda (20) para o lançamento de "Quanto Mais Preta, Melhor" — projeto milionário que inclui documentário e série sobre a cantora que perdeu a batalha contra o câncer aos 50 anos.

Enquanto a família ainda chora, executivos calculam audiência.

O Negócio da Morte

A Globo não divulga números, mas projetos dessa envergadura custam entre R$ 5 e R$ 15 milhões. O retorno? Publicidade, assinaturas do Globoplay e exposição de marca. Preta morreu em 20 de julho de 2025 nos Estados Unidos, onde fazia tratamento experimental depois que o câncer de intestino se espalhou.

Doze meses depois, vira entretenimento premium.

O Teatro do Copacabana Palace — onde diárias chegam a R$ 8 mil — recebeu amigos e familiares para sessão exclusiva. Do lado de fora, o Rio real: favelas a poucos quilômetros, SUS sem remédios, pacientes de câncer na fila do INCA esperando meses por quimioterapia.

Dois Brasis, Uma Tela

O documentário "Preta – Eu Não Ando Só" promete "retrato íntimo dos últimos anos" da artista. Tradução: câmeras acompanharam o sofrimento. Filmaram a dor. Editaram a agonia. Agora vendem como "homenagem à força e autenticidade".

A série "Meu Nome é Preta" completa o pacote. Estreia simultânea na TV aberta e no streaming. Estratégia comercial afiada: pega audiência popular e subscriber pagante.

Preta Gil era filha de Gilberto Gil, ministro da Cultura no governo Lula, deputado federal, patrimônio estimado em dezenas de milhões. Tinha acesso ao que 99% dos brasileiros com câncer jamais terão: tratamento experimental nos EUA, médicos particulares, estrutura completa.

Mesmo assim, morreu.

A Elite Que Chora Bem Vestida

O evento reuniu nomes do primeiro escalão do entretenimento brasileiro. Gente que fatura milhões, viaja de primeira classe, tem plano de saúde internacional. O mesmo círculo que agora empresta rosto e nome para validar o projeto comercial.

Ninguém questiona o timing. Ninguém pergunta se a família precisava de mais exposição. Ninguém calcula quanto a Globo vai faturar com a dor alheia transformada em conteúdo premium.

"Homenagem da Globo à força, autenticidade e legado da artista", diz o release oficial. Tradução dos bastidores: operação comercial calculada ao centavo.

Quanto Vale Uma Vida?

Para a Globo, vale um projeto multimilionário. Para os anunciantes, vale inserções em horário nobre. Para o Globoplay, vale assinaturas novas. Para a família, vale a dor reprocessada em HD, editada com trilha emocionante, vendida como tributo.

Preta Gil deixou legado artístico real. Cantora talentosa, personalidade forte, voz importante. Merecia ser lembrada. A questão é: precisava virar produto um ano depois da morte?

Enquanto isso, nos hospitais públicos brasileiros, pacientes de câncer esperam. Sem câmera, sem documentário, sem homenagem da Globo. Morrem no anonimato. Não valem um projeto. Não dão audiência.

O capitalismo brasileiro tem nome e endereço: Copacabana Palace, noite de segunda-feira, champagne gelado, elite reunida, lágrimas de crocodilo e extrato bancário sorrindo.

Carolina Pereira Ferraz

Carolina Pereira Ferraz

Cronista de poder e dinheiro. Ex-Forbes Brasil, ex-Piauí. Especializada em rankings de riqueza, dinastias políticas e herdeiros do poder.