Indígena barrada no PL: bastidores da disputa milionária

Indígena barrada no PL: bastidores da disputa milionária
Foto: Metrópoles

Enquanto o Fundo Eleitoral de 2024 despeja R$ 4,9 bilhões nos partidos, uma indígena ex-deputada acusa a cúpula do PL de racismo após ter sua candidatura à presidência estadual barrada no Amapá.

Silvia Waiãpi, que ocupou cadeira na Assembleia Legislativa, afirma que Valdemar Costa Neto e o deputado federal Eduardo Furlan orquestraram sua exclusão da disputa interna. A acusação: discriminação racial travestida de argumento técnico.

O jogo de poder interno

O PL Nacional alega que Waiãpi estaria inelegível por condenação no TSE. A ex-deputada rebate: trata-se de manobra para manter o controle do diretório estadual nas mãos do grupo de Furlan.

Quem controla o partido controla o dinheiro. Somente em 2022, o PL recebeu R$ 887 milhões do fundo partidário e eleitoral — o maior valor entre todas as legendas.

"Eles não aceitam uma mulher indígena na presidência", declarou Waiãpi em entrevista ao Metrópoles. "É racismo estrutural operando dentro da máquina partidária."

O patrimônio em disputa

A briga vai além de títulos. Quem preside o diretório estadual define:

  • Distribuição de recursos do fundo eleitoral
  • Escolha de candidatos prioritários
  • Negociações de palanque com candidatos a governador
  • Controle sobre estratégia de campanha regional

No Amapá, estado com 829 mil habitantes, essa estrutura pode parecer pequena. Mas representa porta de entrada para contratos, influência e projeção nacional.

Offshore e poder partidário

A estrutura dos partidos brasileiros funciona como verdadeiras holdings políticas. Recursos públicos entram, decisões fechadas definem rotas — e a transparência permanece opcional.

Investigações recentes revelaram que políticos brasileiros mantêm empresas offshore para blindar patrimônios e receber recursos de origem não declarada. O PL, especificamente, enfrenta investigações sobre suposto uso de laranjas em campanhas passadas.

Waiãpi questiona justamente essa opacidade. Sua candidatura incomodaria um sistema montado para beneficiar poucos.

Racismo ou regra?

O argumento oficial do PL é técnico: inelegibilidade por condenação eleitoral. Waiãpi contra-argumenta que a condenação não se enquadra nos critérios da Lei da Ficha Limpa.

O timing levanta suspeitas. A decisão de barrar sua candidatura veio exatamente quando ela formalizou intenção de disputar a presidência estadual — cargo hoje ocupado por aliado de Furlan.

Eduardo Furlan, deputado federal e homem forte do PL no Amapá, não comentou as acusações de racismo.

O padrão que se repete

Não é a primeira vez que lideranças indígenas e negras relatam barreiras em estruturas partidárias. Dados do TSE mostram que apenas 2,9% dos eleitos em 2022 se declararam indígenas — proporção muito inferior aos 0,83% da população brasileira com essa origem.

Nos diretórios estaduais dos grandes partidos, a presença é ainda menor.

Waiãpi representa uma ameaça dupla: questiona a hegemonia branca nas cúpulas e expõe os mecanismos de poder que blindam fortunas políticas.

Valdemar Costa Neto, presidente nacional do PL, construiu fortuna estimada em dezenas de milhões enquanto comandava a legenda. Sua estratégia sempre foi clara: controle centralizado, decisões de cima para baixo.

Uma indígena presidindo diretório estadual desafia essa lógica.

A Justiça Eleitoral ainda não se pronunciou sobre o impasse. Enquanto isso, o PL segue administrando quase R$ 1 bilhão de recursos públicos anuais — sem diversidade visível no comando.

Fernando Andrade Villela

Fernando Andrade Villela

Investigador financeiro. Cobre offshores, patrimônio declarado vs. real, e o cruzamento entre política e mercado.