US$ 30 bilhões em jogo: juíza barra fusão de gigantes da mídia

US$ 30 bilhões em jogo: juíza barra fusão de gigantes da mídia
Foto: olhardigital.com.br

Trinta bilhões de dólares. Esse é o tamanho do negócio que acaba de travar nos tribunais americanos. Uma juíza federal suspendeu a compra da Warner pela Paramount — operação que criaria o maior conglomerado de entretenimento do planeta.

Enquanto o brasileiro médio ganha R$ 2.800 por mês, executivos dessas empresas negociavam uma fusão equivalente a mais de R$ 165 bilhões. Dinheiro suficiente para pagar o Bolsa Família por três anos.

Califórnia contra Wall Street

A decisão atende pedido de uma coalizão inédita: 12 estados americanos, liderados pela Califórnia, se uniram para barrar o negócio. O argumento? Concentração excessiva de poder.

A estratégia lembra movimentos antitruste históricos. Só que desta vez, o alvo não é petróleo ou telefonia. É entretenimento — e influência.

Duas gigantes controlando estúdios de cinema, canais de TV, plataformas de streaming e produção de notícias. Um império capaz de moldar narrativas para 300 milhões de americanos.

Quem perde e quem ganha

A suspensão judicial representa derrota temporária para os acionistas da Paramount. Suas ações vinham subindo 18% desde o anúncio da fusão.

Do outro lado, pequenos concorrentes respiram aliviados. A fusão reduziria em 40% o número de grandes estúdios independentes nos EUA.

"Estamos falando de controle sobre o que 80% dos americanos assistem diariamente", declarou o procurador-geral da Califórnia ao apresentar o pedido de suspensão.

Para entender a escala: a nova empresa controlaria HBO, CNN, Paramount Pictures, CBS, Showtime e dezenas de outras marcas. Uma concentração sem precedentes desde a era dos barões da mídia.

O modelo que atravessa fronteiras

Esse padrão de concentração não é exclusividade americana. No Brasil, dinastias políticas brasileiras tradicionalmente construíram poder também através da mídia. Famílias que dominam concessões de rádio e TV há gerações.

A diferença? Nos EUA, ao menos desta vez, freios institucionais funcionaram antes da consolidação.

Aqui, concessões públicas permanecem nas mesmas mãos por décadas. Cinco famílias controlam 85% da audiência televisiva nacional. Muitas com sobrenomes conhecidos da política — Sarney, Collor, Magalhães, ACM.

Quanto vale o controle da informação

A suspensão não cancela o negócio. Apenas congela enquanto investigações avançam. Mas já sinaliza resistência crescente contra megafusões.

Analistas estimam que cada mês de atraso custa US$ 200 milhões às empresas envolvidas. Advogados já preparam contra-ataque jurídico.

Enquanto isso, pequenos investidores amargam perdas. Aposentados americanos que compraram ações da Paramount viram US$ 4 bilhões evaporarem em valor de mercado nas primeiras horas após a decisão.

O jogo continua. Com fortunas, reputações e — principalmente — poder em disputa.

Porque no final, não se trata apenas de dinheiro. Trata-se de quem decide o que você assiste, lê e acredita.

Isabela Guimarães Coutinho

Isabela Guimarães Coutinho

Editora de perfis. Escreve retratos de personagens do poder — do bilionário ao aliado invisível do Planalto.