Kassab nega comandar R$ bilhões em emendas do PSD em Brasília

Kassab nega comandar R$ bilhões em emendas do PSD em Brasília
Foto: poder360.com.br

Enquanto milhões de brasileiros discutem centavos no botijão de gás, presidentes de partidos em Brasília negam controlar bilhões em emendas parlamentares. A diferença? Eles mentem.

Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD, afirmou ao ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, que não interfere no destino das emendas de seus deputados e senadores. A declaração veio após ordem judicial que obrigou dirigentes partidários a se manifestarem sobre o tema.

O Estopim: Valdemar Entrega o Jogo

Tudo começou quando Valdemar Costa Neto, cacique do PL de Bolsonaro, soltou a frase que ninguém deveria dizer em voz alta: "É lógico" que presidentes de partidos comandam as emendas. Simples assim. Sem rodeios.

A confissão detonou uma bomba no STF. Dino, que já vinha investigando o esquema das emendas do orçamento secreto 2.0, convocou todos os chefes partidários para dizerem, oficialmente, se mandam ou não no dinheiro público.

Kassab escolheu negar. Formalmente.

Quanto Vale o Silêncio?

O PSD de Kassab tem 146 parlamentares entre Câmara e Senado. Cada deputado federal pode destinar até R$ 25 milhões por ano em emendas individuais. Faça a conta: estamos falando de mais de R$ 2 bilhões anuais só na cota básica.

Some as emendas de comissão, de bancada e de relator — quando existem — e o montante ultrapassa facilmente R$ 4 bilhões sob influência direta ou indireta do partido.

Kassab diz que não toca nisso. Que cada parlamentar decide sozinho. Que o PSD é uma democracia interna perfeita.

"Não há qualquer interferência da direção nacional do partido sobre as emendas parlamentares"

A frase consta na manifestação enviada ao STF. Papel aceita tudo.

O Jogo Real do Poder em Brasília

Nos bastidores, todo mundo sabe como funciona. Presidentes de partidos não assinam cheques, mas decidem quem fica bem na foto, quem ganha palanque, quem recebe apoio em projeto.

E emendas parlamentares são moeda de troca. Sempre foram.

Um prefeito precisa de recursos federais para asfalto? Procura o deputado. O deputado quer se reeleger? Precisa do presidente do partido para liberar tempo de TV, dinheiro de campanha, vaga em comissão importante.

A matemática é cruel: quem controla a legenda, controla o destino político de quem depende dela. E quem depende da legenda controla as emendas. Logo, por transitividade básica...

Dino Aperta o Cerco

O ministro do STF não está para brincadeira. Depois de desmontar o orçamento secreto em 2022, agora mira o controle partidário sobre emendas.

A estratégia é simples: obrigar os chefes a falarem oficialmente. Criar um registro. Se depois surgirem provas de comando centralizado, a mentira vira crime.

Kassab sabe disso. Valdemar também. Por isso a resposta do presidente do PL foi tão explosiva: ele entregou o jogo todo, admitiu o óbvio, e agora Dino tem munição para avançar.

O Preço da Transparência

Enquanto Kassab nega e Valdemar confessa, o Congresso treme. Não pela moralidade — essa já foi para o espaço há décadas. Mas pelo poder.

Se o STF conseguir rastrear e limitar o controle partidário sobre emendas, presidentes de legendas perdem a principal ferramenta de comando. Deixam de ser caciques. Viram apenas siglas.

E em Brasília, poder sem dinheiro é como campanha sem emenda: não existe.

Por enquanto, Kassab mantém a versão oficial. Valdemar virou o incômodo sincero. E Flávio Dino segue recolhendo declarações.

O jogo está só começando. Mas uma coisa é certa: em Brasília, quando alguém nega controlar bilhões, é porque controla muito mais.

Fernando Andrade Villela

Fernando Andrade Villela

Investigador financeiro. Cobre offshores, patrimônio declarado vs. real, e o cruzamento entre política e mercado.