Kataguiri quer prender quem rouba da família. Quem manda no Brasil?

Kataguiri quer prender quem rouba da família. Quem manda no Brasil?
Foto: Congresso em Foco

Enquanto bilionários brasileiros movimentam fortunas sem tocar num centavo de papel-moeda, Kim Kataguiri quer que a polícia invada o jantar de domingo da sua família. O deputado federal apresentou projeto de lei para acabar com a imunidade penal em furtos entre parentes próximos.

Hoje, se seu irmão pegar R$ 500 da sua carteira, a Justiça não move uma palha. É imunidade absoluta. Kataguiri quer mudar isso.

O que está em jogo

O Projeto de Lei 4346/2024 altera o Código Penal para permitir investigação e punição de furtos entre cônjuges, pais, filhos e irmãos — desde que a vítima denuncie formalmente.

A justificativa? Proteger "vítimas vulneráveis" dentro de casa.

O problema? Ninguém perguntou se as famílias brasileiras querem o Estado decidindo quem vai preso depois da briga pela herança da vovó.

Quem contra quem

De um lado: Kataguiri e o discurso punitivista. Do outro: décadas de jurisprudência que consideram a família um núcleo privado, fora do alcance da máquina penal.

O deputado do Podemos — partido que faturou R$ 180 milhões em fundo eleitoral em 2022 — diz que quer proteger idosos e dependentes químicos de parentes predadores.

Mas a conta não fecha. O Brasil tem 820 mil presos, a terceira maior população carcerária do mundo. Sistema falido. Custos bilionários. E Kataguiri quer adicionar brigas de herança à fila?

Quanto custa uma denúncia

Cada preso custa ao Estado brasileiro cerca de R$ 2.400 por mês. São R$ 28.800 por ano. Multiplique por milhares de casos potenciais de "furto entre cunhados".

Enquanto isso, o Judiciário brasileiro já acumula 80 milhões de processos pendentes. A Justiça mal dá conta de crimes violentos — mas vai ter que arbitrar se a tia levou ou não o jogo de porcelana.

O jogo de poder

Kataguiri, ex-líder do MBL, construiu carreira política surfando na onda do antipetismo e do discurso "lei e ordem". Mas quem realmente manda no Brasil não está nas delegacias — está nos conselhos de administração.

Enquanto o deputado quer prender quem furta R$ 100 do primo, offshores movimentam bilhões sem supervisão adequada. Enquanto propõe vigiar a sala de estar das famílias pobres, as ricas têm blindagem jurídica de aço.

A elite brasileira — aquela que concentra mais riqueza que os 50% mais pobres somados — não resolve disputas patrimoniais na delegacia. Resolve em escritórios de advocacia que cobram R$ 2 mil a hora.

O que vem por aí

O projeto segue para análise nas comissões da Câmara. Pode levar meses ou anos. Pode morrer no meio do caminho, como 90% dos PLs apresentados.

Mas a pergunta permanece: num país onde 33 milhões passam fome, onde a violência policial mata milhares por ano, onde a desigualdade é obscena — esse é realmente o problema urgente?

Ou é apenas mais uma cortina de fumaça enquanto quem realmente manda no Brasil continua mandando, longe dos holofotes, longe das algemas, longe da lei que só pega quem não pode pagar para escapar?

Isabela Guimarães Coutinho

Isabela Guimarães Coutinho

Editora de perfis. Escreve retratos de personagens do poder — do bilionário ao aliado invisível do Planalto.