Lancha em chamas no Paranoá: quanto custa passear de barco?

Lancha em chamas no Paranoá: quanto custa passear de barco?
Foto: Metrópoles

Uma lancha pegou fogo no Lago Paranoá, em Brasília, neste fim de semana. Uma mulher teve queimaduras leves na perna. O Corpo de Bombeiros controlou as chamas que atingiram o compartimento do motor.

Detalhe: ela estava passeando. De lancha. No lago artificial mais cobiçado da capital federal.

Enquanto isso, milhares de brasilienses esperam horas por ônibus lotados.

O clube dos eleitos

O Lago Paranoá virou playground dos poderosos. Às margens, condomínios de luxo onde o metro quadrado passa fácil de R$ 15 mil. Na água, lanchas que custam entre R$ 300 mil e R$ 2 milhões.

Quem frequenta? Empresários, lobistas, políticos. Muitos políticos.

Brasília concentra a maior renda per capita do país — R$ 55 mil anuais, segundo o IBGE. Três vezes a média nacional. O patrimônio declarado dos senadores brasileiros soma mais de R$ 1 bilhão. Alguns têm embarcações declaradas. Outros, nem tanto.

Quanto custa andar de barco

Uma lancha básica, usada, sai por R$ 200 mil. Combustível? Cerca de R$ 150 por hora de passeio. Manutenção anual: no mínimo R$ 30 mil. Seguro obrigatório: mais R$ 8 mil.

Só o custo de manter uma lancha pequena equivale ao salário mínimo anual de três brasileiros.

A vítima do incêndio foi socorrida rapidamente. Queimaduras leves. Atendimento garantido. Final feliz.

No mesmo Distrito Federal, pacientes esperam meses por cirurgias no sistema público.

O lago e o poder

O Paranoá não é apenas cartão-postal. É termômetro da desigualdade brasiliense.

Ali se fecham negócios. Ali se articulam votações. Ali acontecem encontros que nunca aparecem nas agendas oficiais.

O acesso é teoricamente público. Na prática, só quem tem lancha — ou conhece quem tem — desfruta da vista privilegiada.

Clubes náuticos cobram mensalidades de R$ 2 mil a R$ 5 mil. Marinas particulares, idem. O cidadão comum fica na margem. Literalmente.

Patrimônio declarado vs. real

A legislação obriga senadores e deputados a declararem seus bens. Embarcações inclusive.

Mas as declarações raramente refletem o padrão de vida real. Lanchas aparecem em nome de empresas. Ou de parentes. Ou de offshores.

O patrimônio oficial dos senadores cresceu 23% entre 2018 e 2022, segundo levantamento do Congresso em Foco. O não-oficial? Esse ninguém sabe.

Enquanto a lancha queimava no Paranoá, o Senado discutia cortes no Bolsa Família.

A mulher ferida vai se recuperar. A embarcação será consertada ou substituída. O seguro cobre.

Para quem mora nas cidades-satélites de Brasília — onde a renda média é R$ 1.800 — um acidente desses representa uma vida inteira de trabalho perdida em minutos.

O fogo foi apagado. A desigualdade continua queimando.

Fernando Andrade Villela

Fernando Andrade Villela

Investigador financeiro. Cobre offshores, patrimônio declarado vs. real, e o cruzamento entre política e mercado.