Lorena Comparato estrela filme de Elize e detona glamourização
R$ 25 milhões. Esse era o patrimônio de Marcos Matsunaga quando foi assassinado e esquartejado pela esposa em 2012. O crime chocou o país — não pela brutalidade, mas pelo código postal: Jardins, São Paulo.
Agora, Lorena Comparato entra no ringue mais perigoso da carreira dela. Pela primeira vez protagonista, a atriz de 35 anos vive Elize Matsunaga em "Elize: Sombras de uma Mulher", filme que estreia questionando por que o Brasil adora assassinas ricas.
"Existe uma glamourização muito perigosa desses casos", dispara Lorena em entrevista recente. "A gente precisa falar sobre isso sem transformar criminosos em celebridades."
O fascínio milionário pelo crime
A produção chega num momento explosivo. Documentários sobre crimes envolvendo dinheiro e poder viraram commodity na Netflix. A própria Elize já foi tema de série documental em 2021, assistida por milhões.
O padrão se repete: quanto maior a conta bancária, maior a audiência. Von Richthofen, Suzane. Yoki, Elize. Todos casos que misturam sangue e CNPJ.
Lorena sabe do terreno minado. "Meu desafio foi humanizar sem romantizar", explica a atriz. "Ela cometeu um crime hediondo. Ponto. Mas existe um contexto que a sociedade precisa entender."
Quem lucra com a tragédia
A família Matsunaga nunca quis holofotes. Herdeiros do império Yoki — vendido para General Mills por US$ 1 bilhão em 2012 — tentaram sem sucesso barrar produções sobre o caso.
Do outro lado, produtoras de streaming faturam alto. Estimativas do mercado apontam que documentários de true crime movimentam R$ 500 milhões anuais só no Brasil.
"Elize: Sombras de uma Mulher" tenta outro caminho. Dirigido por Raphael Montes, o longa foge do formato documental e aposta na ficção baseada em fatos reais.
"Não queremos mostrar o crime em si", afirma Montes. "Queremos discutir por que casos assim viram entretenimento."
O preço da protagonista
Para Lorena, o papel representa virada de chave. Conhecida por coadjuvantes em novelas e séries, ela enfrentou o dilema: aceitar ou recusar viver uma assassina condenada?
"Pensei muito", admite. "Mas achei que seria covardia não aproveitar a primeira protagonista para levantar questões importantes."
A produção investiu R$ 8 milhões no filme — orçamento considerado robusto para padrões brasileiros. Parte veio de incentivos fiscais, parte de fundos privados.
Elize Matsunaga cumpre pena de 19 anos. Está em regime semiaberto desde 2022. Não recebe dinheiro por produções sobre sua história — a lei brasileira proíbe lucro com crimes próprios.
O que está em jogo
A crítica de Lorena acerta o nervo exposto da indústria. Streamings globais descobriram que brasileiros consomem avidamente histórias de crimes da elite.
"A gente assiste porque reconhece aqueles sobrenomes, aqueles bairros", analisa a atriz. "É uma forma mórbida de espiar a vida dos ricos."
O filme estreia em circuito limitado. Distribuidoras aguardam repercussão antes de expandir salas. O cálculo é simples: polêmica vende ingresso.
Enquanto isso, Lorena Comparato aposta que sua protagonista tardia vai além da bilheteria. "Se uma pessoa sair do cinema questionando por que romantizamos assassinos, já valeu."
Resta saber se o público quer reflexão — ou só mais sangue em mármore travertino.