Loteria estatal do Rio licenciou empresa de laranja do PCC

Loteria estatal do Rio licenciou empresa de laranja do PCC
Foto: Metrópoles

Enquanto deputados preparam mais um aumento no salário do Congresso para 2026 — que já ultrapassa R$ 40 mil mensais —, a Loterj, lotérica estadual do Rio de Janeiro, licenciou uma empresa cujo dono está preso por ligações com o PCC.

Sandro Caliari comanda a Aposte Fácil, uma das operadoras autorizadas pela estatal fluminense a explorar apostas no estado. Ele está na cadeia. Motivo: investigações apontam vínculos com a maior facção criminosa do país.

O negócio das apostas valendo bilhões

O mercado de apostas esportivas movimenta cifras estratosféricas no Brasil. Empresas brigam por licenças estaduais e federais que valem ouro. Literalmente.

A Loterj entregou esse passe livre para a Aposte Fácil. Nos bastidores, Caliari comandava. Nos tribunais, a Justiça o mantém preso.

A contradição é cristalina: o Estado do Rio concede autorização para um empresário investigado operar um negócio bilionário, enquanto cidadãos comuns enfrentam burocracia kafkiana para abrir uma barraca de pastel.

Dinheiro público, licença duvidosa

A Loterj é estatal. Seu papel é regulamentar e fiscalizar. Pergunta óbvia: como uma empresa de alguém com investigações criminais em curso consegue o aval oficial?

O silêncio das autoridades fluminenses é ensurdecedor. Não há explicação pública. Não há pedido de desculpas. Não há demissão.

Enquanto isso, parlamentares em Brasília articulam reajustes generosos para 2026. O salário do Congresso já é um dos mais altos do mundo. Mas nunca é suficiente.

PCC, laranjas e o sistema

O esquema é antigo: usa-se um laranja para tocar negócios lucrativos. O verdadeiro dono fica nas sombras. O PCC aperfeiçoou a técnica.

Sandro Caliari nega as acusações. Seus advogados trabalham. A Justiça decide. Mas a licença da Loterj permaneceu ativa por tempo considerável.

A Aposte Fácil operou livremente. Captou apostadores. Movimentou dinheiro. Tudo sob o olhar permissivo do poder público estadual.

Quem fiscaliza os fiscais?

A pergunta que não quer calar: quem aprovou essa licença na Loterj? Houve análise de antecedentes? Checagem de idoneidade?

Ou bastou pagar as taxas e apresentar documentos formalmente corretos, mesmo que materialmente fraudulentos?

O Rio de Janeiro tem histórico. Milícias, facções, negócios sujos travestidos de legalidade. A Aposte Fácil se encaixa nesse padrão.

Enquanto a população fluminense convive com tiroteios, falta de serviços básicos e transporte público caótico, empresas ligadas ao crime organizado operam com carimbo oficial.

O contraste obsceno

De um lado, Sandro Caliari preso por envolvimento com o PCC. Do outro, sua empresa licenciada pelo Estado. No meio, milhões de reais em apostas.

E em Brasília, deputados e senadores discutem quanto vão ganhar em 2026. O salário do Congresso sobe. A conta chega para o contribuinte. Sempre.

A Loterj não revogou a licença imediatamente após a prisão. O processo arrasta-se. A burocracia protege.

É o Brasil em miniatura: crime e poder dividindo o mesmo espaço, enquanto o cidadão paga a conta e assiste da arquibancada.

Fernando Andrade Villela

Fernando Andrade Villela

Investigador financeiro. Cobre offshores, patrimônio declarado vs. real, e o cruzamento entre política e mercado.