Lotofácil sorteia R$ 10 milhões enquanto offshore políticos brasil movimentam bilhões

Lotofácil sorteia R$ 10 milhões enquanto offshore políticos brasil movimentam bilhões
Foto: olhardigital.com.br

Dez milhões de reais. É o prêmio que o concurso 3740 da Lotofácil sorteia nesta segunda-feira, 20 de julho, às 21h. Para o brasileiro médio, uma fortuna. Para quem conhece o mundo das offshores de políticos no Brasil, uma mixaria.

Enquanto milhões de trabalhadores apostam suas fichas em quinze números sorteados por um globo giratório, há quem movimente fortunas dezenas de vezes maiores em paraísos fiscais — sem depender da sorte, apenas de bons contatos e advogados caros.

O jogo dos ricos tem outras regras

A Lotofácil é democrática: qualquer um aposta R$ 3 e torce. Mas existe outro jogo, restrito, onde os prêmios não são sorteados — são planejados. Offshores em Ilhas Virgens Britânicas, Panamá, Delaware. Estruturas legais que permitem esconder patrimônio, reduzir impostos e dificultar rastreamento.

Levantamentos recentes da Receita Federal identificaram mais de 8 mil brasileiros com offshores declaradas. Políticos, empresários, doleiros. O valor? Bilhões. Plural. Maiúsculo.

Ninguém precisa acertar quinze números. Basta ter quinze milhões para começar.

Quem realmente leva o prêmio

O apostador da Lotofácil paga 30% de imposto sobre qualquer prêmio acima de R$ 2.112. Automático. Imediato. Sem negociação.

Quem tem offshore? Negocia, adia, reduz, contesta, recorre. A Receita corre atrás. Advogados emperram. O dinheiro fica fora. Às vezes, para sempre.

"O contribuinte comum não tem estrutura para fazer planejamento tributário agressivo. Os grandes fortunas têm", admitiu um auditor fiscal em depoimento à CPI das Offshores, arquivada em 2016.

Os números que ninguém divulga

A Caixa Econômica Federal anuncia cada ganhador da Lotofácil. Nome, cidade, valor. Transparência total.

Offshores? Sigilo bancário. Acordos de confidencialidade. Jurisdições que não cooperam. Empresas-fantasma com acionistas fantasmas.

Vazamentos como Panama Papers e Pandora Papers revelaram dezenas de políticos brasileiros com empresas offshore. Senadores, deputados, ex-governadores. Todos alegaram legalidade. Poucos foram investigados. Nenhum devolveu nada.

O concurso 3740

Voltando ao sorteio de hoje: a Lotofácil paga para quem acerta 15, 14, 13, 12 ou 11 números. Quanto mais acertos, maior o prêmio. Simples assim.

No jogo das offshores, quanto mais complexa a estrutura, maior o prêmio. Quanto mais camadas societárias, mais difícil rastrear. Quanto mais advogados, menos perguntas.

O apostador brasileiro médio ganha R$ 2.700 por mês. Gasta R$ 20, R$ 50, às vezes R$ 100 por mês em loterias. Sonha com os R$ 10 milhões.

Enquanto isso, offshores de políticos brasileiros acumulam patrimônio equivalente a mil concursos da Lotofácil. Sem apostar. Sem globo giratório. Sem transparência.

Resultado: sempre os mesmos

A Caixa divulgará os números sorteados logo após as 21h. Haverá ganhadores. Talvez um, talvez dez. Cada um levará sua parte, pagará seu imposto, terá seu nome exposto.

Os donos de offshores já levaram a parte deles. Não pagaram o imposto devido. E o nome? Esse continua protegido por estruturas que a lei permite — mas a moral condena.

Dez milhões parecem muito. Até você descobrir quanto alguns escondem.

Carolina Pereira Ferraz

Carolina Pereira Ferraz

Cronista de poder e dinheiro. Ex-Forbes Brasil, ex-Piauí. Especializada em rankings de riqueza, dinastias políticas e herdeiros do poder.