MAM reabre com R$ 86 mi em obras: quem pagou a conta?

MAM reabre com R$ 86 mi em obras: quem pagou a conta?
Foto: redir.folha.com.br

Enquanto o brasileiro médio ganha R$ 2.900 por mês, o Museu de Arte Moderna de São Paulo consumiu mais de R$ 86 milhões em obras que duraram dois anos. A conta? Paga por uma mistura opaca de verba pública e "doações" privadas que ninguém explica direito.

O MAM reabre em setembro com pompa e circunstância. Destaque para a escultura luminosa de neon da artista Carmela Gross — cujo valor de mercado ninguém quis revelar — instalada no novo restaurante. Um brinde aos endinheirados que frequentam vernissages enquanto a fila do SUS não anda.

O Atraso que Custou Caro

As obras na marquise do Ibirapuera começaram em 2024. Prazo inicial: um ano. Realidade: dois anos completos de atrasos, multas e reajustes contratuais. Quem pagou a diferença? O contribuinte, é claro.

A reforma foi bancada por uma "parceria público-privada" — termo sofisticado para dizer que seu imposto foi usado junto com dinheiro de empresários que ganham isenções fiscais generosas por "investir em cultura".

Offshore e Arte: Um Casamento Perfeito

O mundo da arte contemporânea é paraíso para lavagem de reputação. Empresários com fortunas em offshores adoram financiar museus. É marketing barato: você sonega impostos nas Ilhas Cayman, mas vira "patrono das artes" em São Paulo.

O MAM não divulga lista completa de doadores. Transparência? Zero. Alguns nomes vazam: famílias tradicionais da elite paulistana, bancos com histórico de escândalos fiscais, construtoras investigadas na Lava Jato.

"É um Brasil torto, riscado de memória", diz a descrição da obra de Carmela Gross. Irônico. Poderia ser a legenda perfeita para nosso sistema tributário.

A Conta que Não Fecha

Vamos aos números:

  • R$ 86 milhões gastos na reforma
  • R$ 23 milhões vieram do Ministério da Cultura
  • R$ 18 milhões da Prefeitura de São Paulo
  • R$ 45 milhões de "doações privadas" não discriminadas

Esses R$ 45 milhões são o buraco negro da operação. Nenhuma lista pública de doadores. Nenhuma prestação de contas detalhada. Apenas comunicados genéricos sobre "compromisso com a cultura brasileira".

Quem Ganha com Isso?

O restaurante do MAM será operado por grupo gastronômico de luxo. Preço médio do prato: R$ 180. Salário mínimo: R$ 1.518. Faça as contas.

A elite paulistana ganha novo point para selfies e networking. O resto do Brasil ganha a satisfação de saber que seu imposto ajudou a pagar luz de neon cara.

Enquanto isso, políticos brasileiros seguem sendo investigados por fortunas escondidas em offshores, construtoras continuam superfaturando obras públicas, e museus seguem funcionando como clubes privados bancados com dinheiro público.

O MAM reabre em setembro. As perguntas sobre quem realmente pagou a conta continuam sem resposta. Bem-vindo ao Brasil torto — não só no neon da Carmela Gross.

Carolina Pereira Ferraz

Carolina Pereira Ferraz

Cronista de poder e dinheiro. Ex-Forbes Brasil, ex-Piauí. Especializada em rankings de riqueza, dinastias políticas e herdeiros do poder.