Médicos residentes ganham R$ 4,1 mil — elite política quer mais

Médicos residentes ganham R$ 4,1 mil — elite política quer mais
Foto: Congresso em Foco

Enquanto um médico residente rala 60 horas semanais por R$ 4.106,09, filhos e netos das dinastias políticas brasileiras circulam pelos corredores do Congresso decidindo quanto vale o suor dessa turma.

Um projeto em tramitação na Câmara quer aumentar a bolsa e reduzir a jornada para 48 horas semanais. Parece generosidade. Não é. É cálculo eleitoral.

O que está em jogo

A proposta prevê reajuste anual atrelado ao INPC, limite de 24 horas para plantões e intervalo obrigatório de 12 horas entre turnos. No papel, proteção trabalhista. Na prática, moeda de troca política.

Os residentes são mão de obra barata que mantém hospitais públicos funcionando. Trabalham mais que médicos formados, ganham menos que qualquer assessor parlamentar. A conta não fecha — exceto para quem usa o sistema de saúde como palanque.

Quem decide por você

As dinastias políticas brasileiras — Sarney, Barbalho, Calheiros, Magalhães — dominam comissões de saúde há décadas. Seus herdeiros votam projetos que mexem com 400 mil profissionais de saúde em formação.

Nenhum deles passou por plantão de 24 horas. Nenhum sobreviveu com R$ 4 mil por mês. Mas todos têm opinião sobre quanto vale a vida de quem segura o bisturi.

O custo real

Aumentar a bolsa custa R$ 1,6 bilhão aos cofres públicos. Reduzir a jornada exige contratar mais gente. Hospitais-escola alegam que não têm orçamento. O Ministério da Saúde não se pronunciou.

Enquanto isso, deputados aprovaram R$ 5,1 bilhões em emendas parlamentares só em 2024. Dinheiro que vai para obras inacabadas, festivais em cidades-fantasma, asfalto que derrete no primeiro verão.

A prioridade está clara: médicos podem esperar. Currais eleitorais, não.

A resistência

Entidades médicas apoiam a proposta. A Associação Nacional de Médicos Residentes pressiona há anos. Sindicatos ameaçam greve. Mas o projeto tramita em velocidade de tartaruga desde 2019.

Nada acontece por acaso no Congresso. Projetos que beneficiam corporações atravessam em semanas. Projetos que custam dinheiro ao Estado dormem em gavetas — exceto quando viram manchete e constrangem.

As mesmas famílias que controlam estados inteiros decidem se você terá médico no posto de saúde. Se a bolsa sobe ou desce. Se o plantão mata ou não.

Eles não sentem na pele. Usam hospital particular. Plano premium. Atendimento VIP.

A residência médica é para os outros. Os filhos da elite vão fazer MBA em Boston.

Carolina Pereira Ferraz

Carolina Pereira Ferraz

Cronista de poder e dinheiro. Ex-Forbes Brasil, ex-Piauí. Especializada em rankings de riqueza, dinastias políticas e herdeiros do poder.