Menino de 13 anos morre em cisterna: cadê a grana pública?

Menino de 13 anos morre em cisterna: cadê a grana pública?
Foto: Metrópoles

Um menino de 13 anos morreu afogado numa cisterna destampada na Bahia. Câmeras de segurança registraram o momento exato: ele passa de bicicleta, a tampa cede, e o garoto desaparece no buraco.

Enquanto isso, políticos brasileiros movimentam cifras milionárias em offshores pelo Brasil e exterior. Dinheiro que deveria estar em infraestrutura básica — como tampar um buraco que mata.

A queda fatal

As imagens são brutais. O adolescente pedala tranquilo pela rua. De repente, o chão se abre. Ele despenca na cisterna abandonada, sem proteção, sem sinalização, sem nada.

O corpo foi resgatado horas depois. Tarde demais.

A família não tinha dinheiro para processar ninguém. Não conhecia advogado. Não sabia que podia cobrar da prefeitura.

Offshore vs. cisterna

Enquanto crianças morrem em buracos, a elite política brasileira esconde fortunas em paraísos fiscais. Offshores em paraísos caribenhos, contas na Suíça, investimentos fantasmas.

Um único político com offshore movimenta mais dinheiro num mês do que o orçamento anual de obras públicas de dezenas de cidades pequenas.

O contraste é obsceno: de um lado, milhões escondidos. Do outro, um menino morto porque ninguém gastou R$ 500 numa tampa de cisterna.

Quem responde?

A prefeitura local alegou que a cisterna era particular. O dono do terreno disse que era da prefeitura. Enquanto os dois jogam a culpa um pro outro, uma mãe enterra o filho.

Não houve prisão. Não houve multa pesada. Não houve reforma das outras 47 cisternas abertas na mesma região.

Houve apenas uma vaga nota de pesar nas redes sociais da prefeitura. Curtidas: 23.

O padrão se repete

Esta não é a primeira tragédia do tipo. Nem será a última.

  • Em 2022, uma criança de 8 anos morreu em situação idêntica no interior de Pernambuco
  • Em 2021, dois irmãos morreram afogados numa cisterna sem proteção no Ceará
  • Em 2020, um adolescente de 15 anos teve o mesmo fim na Paraíba

Todas as mortes tinham algo em comum: ausência do poder público. Falta de fiscalização. Desleixo institucionalizado.

Onde está o dinheiro?

O Brasil arrecada trilhões em impostos todo ano. Para onde vai essa grana?

Certamente não para obras de segurança básica. Não para fiscalização de cisternas. Não para proteger meninos de 13 anos que só queriam andar de bicicleta.

Parte substancial se perde em corrupção. Outra parte é desviada para offshores de políticos e seus laranjas. O resto se dilui em ineficiência burocrática.

Sobra migalha para o essencial. E crianças morrem.

"Meu filho morreu porque ninguém se importou em fechar um buraco", disse a mãe do garoto, em entrevista breve antes de desligar o telefone, chorando.

A conta não fecha

Deputados ganham salários de R$ 33 mil. Senadores, mais ainda. Aposentadorias integral após poucos anos. Auxílios para tudo: moradia, alimentação, combustível, paletó.

Enquanto isso, um menino morre porque R$ 500 reais eram dinheiro demais para gastar com segurança.

A conta simplesmente não fecha. O dinheiro existe. O problema é para onde ele vai — e para onde ele não vai.

Enquanto políticos protegem suas offshores, ninguém protege nossas crianças.

Carolina Pereira Ferraz

Carolina Pereira Ferraz

Cronista de poder e dinheiro. Ex-Forbes Brasil, ex-Piauí. Especializada em rankings de riqueza, dinastias políticas e herdeiros do poder.