Menu de R$ 800 em Botafogo: chef inglês quer ensinar carioca a comer
Enquanto o salário mínimo brasileiro mal paga o aluguel, um chef inglês em Botafogo decidiu que os cariocas precisam aprender a comer direito. O preço da aula? Um menu que facilmente ultrapassa os R$ 800 por cabeça no restaurante Nimbus.
Jimmy McLennan, o britânico por trás do fogão, acaba de lançar um "percurso gastronômico em quatro etapas" — porque três pratos seriam pouco para quem tem dinheiro sobrando. A proposta chega seis meses após a abertura da casa, que claramente não mirava o trabalhador médio da zona sul.
A missão civilizatória gastronômica
"Queremos que mais cariocas conheçam a cozinha do Jimmy da maneira como ela foi pensada: com tempo, cuidado e uma relação direta entre produto, técnica e hospitalidade", explica Ruth de Assis, brasileira e esposa do chef. Traduzindo: se você não tem tempo nem dinheiro para gastar horas numa refeição, o Nimbus não é para você.
O tom professoral não é acidente. O novo menu foi "pensado para apresentar ao público carioca a identidade da casa". Como se os cariocas precisassem de aulas sobre comida — justamente na cidade que inventou o feijão completo e o boteco perfeito.
Pão com manteiga de R$ 50
A experiência começa antes das quatro etapas oficiais, com o momento batizado de "Aconchegue-se". Nele, servem pão fermentado (sourdough, no original chique) com manteiga de cebola. Em qualquer botequim decente do Rio, isso seria cortesia. No Nimbus, é conceito.
A estratégia é clara: pegar técnicas europeias, embrulhar em vocabulário sofisticado e vender para quem pode pagar. É o velho colonialismo, agora servido em porcelana fina.
O público-alvo
Enquanto isso, deputados e senadores — que ganham R$ 33 mil por mês mais benefícios — não piscam antes de reservar. Para os ricos do Congresso, um jantar de R$ 1.600 a dois é fichinha, mal compromete a cota parlamentar.
O Nimbus não é o primeiro nem será o último restaurante caro do Rio. Mas a diferença está no discurso. Outros estabelecimentos de luxo assumem que servem a elite. Este aqui vende a ilusão de estar "educando" a cidade.
Jimmy McLennan tem currículo: passou por cozinhas renomadas na Europa. Ruth de Assis conhece o mercado brasileiro. Juntos, montaram um negócio perfeitamente calibrado para extrair o máximo de uma clientela restrita.
O verdadeiro menu
O cardápio real do Nimbus não está nos pratos. Está na seleção social que preços assim impõem. Cada etapa do menu é também uma etapa de exclusão: quem tem acesso, quem fica de fora, quem pode se dar ao luxo de "aprender" com um chef estrangeiro.
Botafogo, bairro tradicionalmente de classe média, vai se acostumando a estabelecimentos que ignoram quem sempre morou ali. O Nimbus é só mais um capítulo dessa história — desta vez narrado com sotaque britânico e servido em quatro tempos.
No fim, a cozinha de Jimmy McLennan é excelente. Mas a pretensão de "apresentar" algo aos cariocas, como se fôssemos alunos ignorantes, deixa gosto amargo. Um gosto que nenhuma manteiga de cebola consegue disfarçar.