Michelle Bolsonaro e Bia Kicis: a corrida milionária ao Senado
O salário de um senador brasileiro é de R$ 33.763 mensais. Multiplique por quatro anos de mandato. Adicione verbas de gabinete, passagens aéreas ilimitadas e fundo partidário. A conta chega fácil a R$ 2 milhões por parlamentar — dinheiro público, naturalmente.
Foi pensando nessa matemática que Valdemar Costa Neto, presidente nacional do PL, comandou a convenção partidária em Brasília que oficializou Michelle Bolsonaro e Bia Kicis como candidatas ao Senado pelo Distrito Federal.
A cena foi digna de campanha presidencial: coro ensaiado, militantes aos gritos, números de urna repetidos como mantra. Valdemar puxava o refrão. A plateia devolvia em uníssono.
O cacique e suas rainhas
Valdemar não é homem de fazer convenção por romantismo político. O dirigente do PL, com décadas de trânsito nos bastidores do poder, sabe exatamente o que duas senadoras bolsonaristas representam: acesso direto ao cofre do fundo partidário e influência sobre milhões de eleitores.
Michelle Bolsonaro traz consigo a estrutura de campanha do ex-presidente. Bia Kicis carrega a bandeira ideológica e o cabo eleitoral entre conservadores radicais.
Juntas, podem atrair doações milionárias de empresários simpáticos à causa e garantir ao PL uma bancada fiel no Senado — casa legislativa onde se aprovam indicações para tribunais superiores e se definem os rumos de CPIs.
Quanto vale um mandato no Senado?
O Senado brasileiro tem 81 cadeiras. Cada uma vale ouro político. Literalmente.
Senadores têm acesso a emendas parlamentares que podem ultrapassar R$ 30 milhões por ano. Controlam comissões poderosas. Definem ministros do STF. Julgam presidentes em processos de impeachment.
Para o PL de Valdemar, ter Michelle e Bia no Senado significa blindagem jurídica para aliados, palanque permanente para 2026 e controle sobre fatias do orçamento federal.
A pergunta que ninguém faz em público: de onde virá o dinheiro para bancar duas campanhas caras ao Senado? Fundo partidário tem limite. Doações empresariais, idem. Resta a criatividade contábil — especialidade de partidos brasileiros há décadas.
O jogo das cadeiras em Brasília
O Distrito Federal elege três senadores, em sistema de rodízio. Em 2026, duas vagas estarão em disputa. Michelle e Bia querem ambas.
A concorrência não será pequena. PT, PSOL e partidos de centro já afiam facas para a briga. Quem vencer terá oito anos pela frente — dois mandatos completos de influência e acesso a recursos.
Valdemar sabe disso. Por isso transformou a convenção em espetáculo. Por isso ensaiou o coro. Por isso colocou suas duas apostas na vitrine, sob holofotes, diante de câmeras.
O recado foi claro: o PL vai investir pesado nessas candidaturas. Dinheiro do fundo partidário, estrutura de campanha, marqueteiros de primeira linha. Tudo para garantir que Michelle e Bia cheguem ao Senado em 2027.
Sombras nas contas partidárias
A história recente do financiamento político brasileiro é cheia de capítulos sombrios. Offshore em paraísos fiscais, caixa dois, doações fantasma. A lista é conhecida.
Campanhas ao Senado custam caro. Muito caro. E nem sempre a prestação de contas revela a origem exata de cada centavo.
Michelle e Bia ainda não detalharam de onde virão os recursos para suas campanhas. O PL tem fundo partidário robusto, mas precisa dividir entre dezenas de candidatos pelo país.
Resta saber se haverá transparência total — ou se veremos, mais uma vez, o jogo de sempre: dinheiro entrando por portas invisíveis, saindo por janelas discretas, financiando o espetáculo que Valdemar comandou naquela convenção em Brasília.
No final, a conta sempre chega. Às vezes na Justiça Eleitoral. Às vezes no noticiário policial. Quase sempre, tarde demais.