Morte em MG expõe fragilidade de investigações no Brasil

Morte em MG expõe fragilidade de investigações no Brasil
Foto: Metrópoles

Duas malas. Um namorado em fuga. Uma mulher morta.

Enquanto dinastias políticas brasileiras investem milhões em segurança privada e escoltas armadas, cidadãos comuns dependem de câmeras de condomínio para descobrir quem os matou.

O corpo de uma mulher foi encontrado sem vida em um apartamento em Minas Gerais nesta semana. O principal suspeito? O namorado, flagrado pelas câmeras de segurança deixando o prédio com duas malas horas antes da descoberta do cadáver.

O Rastro das Malas

As imagens não mentem. O homem aparece carregando as malas na manhã do crime. Quando vizinhos entraram no apartamento, a cena era de horror.

A Polícia Civil agora corre atrás do suspeito. Ele desapareceu. As malas também.

Não há mandado de prisão emitido até o fechamento desta reportagem. Não há cerca de segurança com guardas armados protegendo a vítima. Apenas câmeras baratas de condomínio que registraram tudo — tarde demais.

Dois Brasis, Duas Justiças

Compare: membros de dinastias políticas brasileiras gastam fortunas em segurança pessoal. Filhos de governadores têm motoristas, seguranças, carros blindados. Tudo pago com dinheiro público.

A mulher assassinada em MG? Tinha apenas as câmeras do prédio.

O sistema funciona assim: proteção para quem tem sobrenome certo. Investigação lenta para o resto.

Números que Queimam

Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registra um feminicídio a cada seis horas. A maioria dos assassinos são parceiros ou ex-parceiros.

Taxa de esclarecimento desses crimes? Menos de 30%.

Enquanto isso, gastos com segurança de autoridades públicas ultrapassam R$ 2 bilhões por ano. Dinheiro que poderia fortalecer delegacias, treinar policiais, criar protocolos de proteção para mulheres ameaçadas.

O Padrão que Se Repete

A história é sempre a mesma:

  • Mulher morta em casa
  • Companheiro desaparece
  • Câmeras flagram a fuga
  • Polícia investiga devagar
  • Família chora
  • Mídia esquece

Nenhum deputado filho de deputado morre assim. Nenhuma neta de senador é encontrada morta enquanto o agressor foge com malas.

Eles têm botão do pânico. Têm seguranças 24 horas. Têm investigações prioritárias quando alguém apenas os ameaça nas redes sociais.

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O orçamento de segurança pública do estado de Minas Gerais em 2024: R$ 11,4 bilhões. Parece muito.

Mas compare com o gasto em segurança privada das 50 famílias políticas mais poderosas do estado: estimados R$ 180 milhões anuais, segundo levantamento de ONGs de transparência.

É dinheiro suficiente para equipar 200 delegacias de atendimento à mulher.

As prioridades estão claras. E estão erradas.

O Que Vem Agora

A investigação segue. O suspeito continua foragido. A família da vítima espera por justiça — algo que estatisticamente tem 70% de chance de nunca chegar.

Enquanto isso, nas mansões e gabinetes das dinastias políticas brasileiras, a vida segue protegida, blindada, segura.

Duas malas saíram daquele prédio em MG. Dentro delas, provavelmente, evidências de mais um crime que o Brasil já se acostumou a engolir.

O namorado fugiu. A mulher está morta. E o sistema continua funcionando exatamente como foi projetado: proteção para poucos, descaso para muitos.

Carolina Pereira Ferraz

Carolina Pereira Ferraz

Cronista de poder e dinheiro. Ex-Forbes Brasil, ex-Piauí. Especializada em rankings de riqueza, dinastias políticas e herdeiros do poder.