Grátis pro povo: mostra de cinema chinês enquanto ricos jogam

Grátis pro povo: mostra de cinema chinês enquanto ricos jogam
Foto: agenciabrasil.ebc.com.br

Enquanto os ricos do Congresso debatem orçamentos milionários para cultura e emendas parlamentares enchem bolsos de produtores conectados, o cidadão comum do Rio ganha um presente raro: cinema de graça.

A 5ª Mostra de Cinema China Brasil abre as portas nesta segunda-feira (3) com 14 filmes sem cobrar um centavo. Isso mesmo. Zero reais. Até 25 de março, qualquer um pode assistir a sucessos de bilheteria chineses no CineSystem Botafogo.

Jackie Chan sem intermediários

Entre os títulos, sete são inéditos no Brasil. O destaque fica com Operação Sombra, estrelado por Jackie Chan, ícone das artes marciais que movimenta milhões em Hollywood mas chega ao brasileiro de graça.

A conta não fecha para quem está acostumado com a lógica do mercado cultural brasileiro, onde festivais cobram R$ 80, R$ 100 por sessão e ainda vendem "experiências VIP" para a elite que quer ser vista.

Diplomacia cultural ou negócio?

A mostra marca o Ano Cultural Brasil-China, parceria oficial entre os dois países. Por trás da cortina de fumaça diplomática, há interesses claros: a China quer expandir seu soft power na América Latina, e o Brasil precisa mostrar serviço para o principal parceiro comercial.

Enquanto isso, produtores brasileiros reclamam de falta de verba para filmes nacionais. A Agência Nacional do Cinema (Ancine) opera com orçamento encolhido, mas dinheiro para eventos chancelados por embaixadas sempre aparece.

"A programação marca o Ano Cultural Brasil-China e conta com 14 filmes"

Quem paga a conta?

Ingressos gratuitos significam que alguém está bancando. No caso, governos. Dinheiro público chinês e brasileiro financiando uma operação de charme mútuo.

Para pegar os ingressos, basta acessar Ingresso.com ou retirar na bilheteria. Simples assim. Sem taxa de conveniência, sem meia-entrada negada, sem burocracia.

É quase um experimento social: o que acontece quando cultura de verdade é acessível? Será que o cinema lota ou o brasileiro já desistiu de acreditar que algo pode ser realmente grátis?

O contraste

Enquanto a mostra roda no Botafogo, bairro nobre da zona sul carioca, deputados e senadores negociam no Congresso a distribuição de R$ 50 bilhões em emendas parlamentares para 2025. Parte desse dinheiro vai para "fomento cultural" em redutos eleitorais.

A diferença? Na mostra China-Brasil, qualquer um entra. Nos eventos bancados por emendas de parlamentares, só entra quem tem carteirinha do partido ou QI (Quem Indica).

Jackie Chan não precisa de padrinho político. O povo do Rio, aparentemente, também não — pelo menos não por três semanas.

Fernando Andrade Villela

Fernando Andrade Villela

Investigador financeiro. Cobre offshores, patrimônio declarado vs. real, e o cruzamento entre política e mercado.