O negócio bilionário por trás das pesquisas eleitorais no Brasil

O negócio bilionário por trás das pesquisas eleitorais no Brasil
Foto: redir.folha.com.br

Enquanto você quebra a cabeça tentando entender qual candidato vai vencer, alguém está enchendo o bolso de dinheiro. O mercado de pesquisas eleitorais no Brasil movimenta cifras milionárias a cada ciclo eleitoral — e agora o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, quer criar um selo de "acurácia" para separar os bons dos ruins.

O problema? Pesquisas eleitorais não foram feitas para prever quem vence.

O que Kassio não entendeu

A proposta do ministro soa bonita no papel: premiar os institutos que "acertam" os resultados. Mas revela um desconhecimento básico sobre como funcionam as pesquisas. Elas capturam um momento, uma fotografia. Não uma bola de cristal.

Seria o mesmo que criar um selo para meteorologistas que acertam a previsão do tempo com 30 dias de antecedência. Simplesmente não é para isso que servem.

Quem lucra com a confusão

Os grandes institutos de pesquisa no Brasil faturam milhões por levantamento. Datafolha, Ipec, AtlasIntel, Quaest — todos cobram entre R$ 80 mil e R$ 300 mil por pesquisa presidencial registrada no TSE.

Em um ano eleitoral, são centenas de pesquisas encomendadas por veículos de imprensa, partidos políticos e candidatos. O mercado inteiro pode ultrapassar R$ 200 milhões em receita.

E não para por aí. As empresas que controlam esses institutos frequentemente têm outros braços de negócio: consultorias políticas, marketing, análise de dados. A pesquisa eleitoral é a vitrine que atrai clientes para serviços muito mais rentáveis.

O jogo das expectativas

Aqui está o segredo que poucos contam: pesquisas influenciam tanto quanto medem. Um candidato que aparece na frente atrai doadores, voluntários, tempo de TV. Cria uma profecia autorrealizável.

Por isso mesmo, o debate sobre "acurácia" mascara a verdadeira questão: quem paga pelas pesquisas e o que espera em troca?

"Criar um selo de precisão para pesquisas é como premiar um termômetro por 'acertar' se vai fazer calor amanhã" — estatístico consultado pela reportagem

Cartomantes versus estatísticos

A provocação no título não é à toa. Se você quer saber quem vence uma eleição antes do resultado oficial, suas chances com uma cartomante são estatisticamente similares às de uma pesquisa feita 30 dias antes do pleito.

Pesquisas medem intenção de voto naquele momento específico. Eventos podem mudar tudo em 48 horas: um escândalo, um debate desastroso, uma crise econômica.

Mas cartomante não cobra R$ 200 mil por consulta. E não tem acesso privilegiado aos bastidores do poder para vender outros serviços.

O que está realmente em jogo

A iniciativa do TSE não é sobre precisão científica. É sobre controle. Quem recebe o selo do governo ganha credibilidade automática. Vira fonte oficial, referência obrigatória.

E isso vale ouro no mercado de influência política — onde os verdadeiros bilionários não aparecem em ranking algum, mas controlam as narrativas que definem quem chega ao poder.

No fim, a pergunta que ninguém faz é a mais importante: quanto vale a capacidade de moldar a percepção pública sobre quem pode vencer? E quem está disposto a pagar por isso?

Carolina Pereira Ferraz

Carolina Pereira Ferraz

Cronista de poder e dinheiro. Ex-Forbes Brasil, ex-Piauí. Especializada em rankings de riqueza, dinastias políticas e herdeiros do poder.