Poder e dinheiro Brasília: Neoenergia corta luz no Riacho Fundo
Segunda-feira. Sem luz. Sem geladeira. Sem internet. Sem ventilador no calor de Brasília. Enquanto isso, a 15 quilômetros dali, o Lago Sul brilha com suas mansões climatizadas 24 horas por dia.
A Neoenergia — distribuidora que fatura bilhões no Distrito Federal — decidiu que o Riacho Fundo ficará às escuras nesta segunda-feira. O motivo oficial? "Melhoria e modernização da rede".
Traduzindo: os moradores pagam a conta. Literalmente.
O corte programado que ninguém programa pagar menos
A suspensão temporária do fornecimento atinge diversas áreas da região administrativa. Famílias acordarão sem energia. Comércios locais perderão faturamento. Alimentos estragarão em geladeiras desligadas.
A Neoenergia não divulgou desconto proporcional nas faturas dos afetados. Surpresa? Nenhuma.
A empresa, controlada pela espanhola Iberdrola — gigante europeia com patrimônio superior a 130 bilhões de euros — opera no DF através da CEB Distribuição. O negócio é simples: monopólio regulado, receita garantida, investimento mínimo.
A geografia do apagão
O Riacho Fundo concentra população de classe média e média-baixa. Renda per capita: cerca de R$ 2.800. Comparação inevitável: no Lago Sul, passa de R$ 12 mil.
Coincidência que as "melhorias" sempre aconteçam nas regiões mais pobres? Que os cortes programados nunca atinjam o Setor de Embaixadas?
A Neoenergia alega necessidade técnica. Pode até ser verdade. Mas a pergunta permanece: por que a infraestrutura das áreas nobres nunca precisa dessas intervenções emergenciais?
O silêncio rentável
Procurada, a Neoenergia confirmou apenas o corte programado. Não informou:
- Duração exata da suspensão
- Quantidade de imóveis afetados
- Compensação financeira aos consumidores
- Cronograma de obras para outras regiões administrativas
O silêncio corporativo é estratégico. Menos informação, menos cobrança. Menos transparência, mais lucro.
Quem paga a conta
A tarifa de energia no DF está entre as mais caras do Brasil. O consumidor paga impostos, encargos setoriais, investimentos em infraestrutura. Tudo embutido na conta que chega no fim do mês.
Mas quando a energia não chega, o desconto também não vem.
É o capitalismo assimétrico: lucros privados, prejuízos públicos. A Neoenergia registra receita, os moradores do Riacho Fundo registram o boletim de ocorrência pelos alimentos estragados.
Brasília é assim: poder e dinheiro definem até quem tem direito à luz. Literalmente.
Enquanto a capital federal concentra os maiores salários do funcionalismo público brasileiro — média de R$ 18 mil mensais — suas periferias apagam. Um contraste que nenhuma "modernização da rede" consegue iluminar.