Neurocirurgião do Piauí morre aos 62: fortuna, aviões e poder

Neurocirurgião do Piauí morre aos 62: fortuna, aviões e poder
Foto: Metrópoles

Dois aviões caíram com ele dentro. Jacinto Lay saiu andando das duas vezes. O câncer de pele não deu a mesma chance ao neurocirurgião piauiense que morreu segunda-feira em São Paulo, aos 62 anos.

A história de Lay é a história de quem construiu poder onde poucos olham. Teresina. Interior do Piauí. Longe dos holofotes de São Paulo e Rio, o médico montou um império silencioso em neurocirurgia — cirurgias complexas, pacientes de elite regional, jatinhos particulares.

O Preço da Altitude

Sobreviver a duas quedas de avião deveria render título de imortal. Lay não falava muito sobre os acidentes. Médicos que voam o próprio avião formam uma elite dentro da elite — profissionais que faturam o suficiente para comprar, manter e pilotar aeronaves particulares.

No Brasil, estima-se que menos de 2% dos médicos tenham esse poder aquisitivo. Jacinto Lay estava nesse clube.

Os acidentes nunca foram detalhados publicamente. Datas, causas, extensão dos danos — tudo mantido em sigilo. Typical da elite médica brasileira: discrição absoluta sobre patrimônio e percalços.

Fortuna Construída Bisturi a Bisturi

Neurocirurgia é o topo da cadeia alimentar médica. Procedimentos custam entre R$ 30 mil e R$ 200 mil na rede particular. Lay operava havia décadas.

Faça as contas.

Reconhecido no Piauí, o médico construiu reputação operando casos complexos. Tumores cerebrais, hérnias de disco graves, traumas cranianos. O tipo de especialista que a elite nordestina procura quando o problema é sério.

Enquanto o SUS amarga filas de meses para neurocirurgias básicas, médicos como Lay atendem em 48 horas — se você tiver o dinheiro.

O Inimigo Invisível

Câncer de pele. Melanoma, provavelmente — a fonte não especifica, outro sinal de discrição familiar. É a ironia cruel: o homem que sobreviveu ao impossível foi derrotado por células do próprio corpo.

Lay estava em tratamento. Morreu em São Paulo, onde ficam os melhores hospitais oncológicos do país. Hospital Sírio-Libanês, Albert Einstein, A.C.Camargo — templos da medicina cara onde a elite vai morrer com dignidade.

Custo médio de tratamento oncológico completo na rede privada paulistana: R$ 500 mil a R$ 2 milhões.

Quem Manda de Verdade

A morte de Jacinto Lay expõe a geografia do poder médico brasileiro. Neurocirurgiões no interior não são médicos comuns. São senhores locais de um feudo invisível:

  • Controlam acesso a procedimentos que salvam vidas
  • Definem quem opera e quando
  • Acumulam patrimônio silenciosamente
  • Voam em aviões próprios enquanto o SUS não tem gaze

O Brasil tem 559 neurocirurgiões ativos. Para 215 milhões de habitantes. Desses, menos de 100 atendem pelo SUS regularmente.

Jacinto Lay representava essa elite técnica que mantém o sistema de saúde brasileiro refém: conhecimento concentrado, preços estratosféricos, acesso restrito.

O Legado

Lay deixa família e pacientes. Sua clínica em Teresina deve continuar — impérios médicos raramente morrem com seus fundadores. Há sócios, há sucessores, há dinheiro demais em jogo.

O neurocirurgião venceu a gravidade duas vezes. Perdeu para a biologia uma. No fim, todos perdem.

Mas alguns perdem com muito mais dinheiro no banco.

Carolina Pereira Ferraz

Carolina Pereira Ferraz

Cronista de poder e dinheiro. Ex-Forbes Brasil, ex-Piauí. Especializada em rankings de riqueza, dinastias políticas e herdeiros do poder.