Parque Nacional vira palco de guerra fundiária milionária no DF

Parque Nacional vira palco de guerra fundiária milionária no DF
Foto: Metrópoles

Enquanto políticos brasileiros escondem patrimônio em offshore no exterior, a briga por metro quadrado de terra pública no coração de Brasília expõe outro esquema: invasões organizadas em áreas que valem ouro.

O DF Legal voltou ao Parque Nacional de Brasília nesta terça-feira (21) para varrer os escombros da operação anterior. A missão? Garantir que os removidos na segunda (20) não retornem à área invadida.

O nome oficial é operação de «rescaldo». O significado real: guerra territorial urbana.

Terra pública, lucro privado

O Parque Nacional não é terreno baldio. É unidade de conservação federal, criada em 1961, com mais de 42 mil hectares. Nos arredores da capital, cada hectare irregular vale milhões no mercado negro de terras.

A matemática é simples: invadir, lotear, vender. O prejuízo fica com o contribuinte. O lucro, com quem orquestra.

Não é coincidência que áreas públicas nobres sofram pressão constante de grileiros. O padrão se repete: ocupação «espontânea», seguida de pressão política para regularização, culminando em valorização estratosférica.

Quem está por trás

A reportagem apurou que invasões em parques nacionais seguem roteiro conhecido. Grupos organizados mapeiam áreas, mobilizam ocupantes, criam fato consumado. Depois, vendem a «posse» ou pressionam por regularização.

O DF Legal — força-tarefa que reúne 14 órgãos do governo local — precisou voltar ao local porque a pressão continua. Remover é fácil. Impedir o retorno, nem tanto.

"As operações de rescaldo são fundamentais para consolidar a desocupação e evitar reincidência", diz fonte ligada à operação.

Traduzindo: sem vigilância, a invasão recomeça antes do pôr do sol.

O padrão Brasília

A capital federal nasceu planejada. Hoje convive com mais de 400 ocupações irregulares catalogadas. Algumas viram bairros inteiros. Outras, como no Parque Nacional, são combatidas — quando há vontade política.

O contraste é brutal. Enquanto famílias disputam lotes invadidos em área de preservação, a elite política brasileira diversifica patrimônio em paraísos fiscais, longe dos olhos da Receita.

Segundo levantamento de 2023, ao menos 47 políticos com mandato ativo possuem empresas offshore registradas em jurisdições opacas. O valor estimado ultrapassa R$ 2 bilhões.

Mesma lógica, escalas diferentes: esconder patrimônio, driblar fiscalização, lucrar na sombra.

O custo da omissão

Cada operação do DF Legal mobiliza dezenas de agentes, viaturas, helicópteros. O custo por ação chega a R$ 300 mil. E precisa ser repetida porque a estrutura de invasão permanece intacta.

Ninguém investiga quem financia as ocupações. Ninguém rastreia para onde vai o dinheiro da venda irregular de lotes públicos. Ninguém conecta os pontos entre grilagem local e lavagem internacional.

Enquanto isso, o Parque Nacional — que deveria ser patrimônio de todos — vira campo de batalha entre invasores recorrentes e Estado reativo.

A pergunta que ninguém faz em Brasília: quanto vale não investigar a fundo?

Fernando Andrade Villela

Fernando Andrade Villela

Investigador financeiro. Cobre offshores, patrimônio declarado vs. real, e o cruzamento entre política e mercado.