PM acusado de matar capitã já tinha 2 BOs de violência
Um policial militar ganha em média R$ 5.800 em Minas Gerais. Uma capitã da PM, como Michele Leão Azevedo, chega a R$ 12 mil. Ambos armados, treinados pelo Estado, pagos com dinheiro público. Mas quando a violência sai da rua e entra em casa, o uniforme protege quem?
O PM preso pela morte de Michele já carregava duas denúncias de violência doméstica. Os boletins de ocorrência foram registrados em 2014 e 2016. Continuou fardado. Continuou armado.
O histórico que ninguém quis ver
As vítimas dos BOs anteriores não eram Michele. Eram outras mulheres. A Polícia Civil não divulgou os nomes nem os desfechos dos casos. O que se sabe: o policial seguiu na ativa por mais oito anos depois da segunda denúncia.
Michele, 31 anos, foi encontrada morta em 19 de maio dentro de casa, em Belo Horizonte. O PM, cujo nome não foi revelado oficialmente, foi preso em flagrante. A arma do crime era dele.
Quanto custa manter um agressor fardado?
A Polícia Militar de Minas tem 47 mil agentes. O orçamento anual da corporação ultrapassa R$ 8 bilhões. Desse montante, quanto vai para investigar a própria tropa? Quanto para afastar quem já deu sinais?
Não há resposta clara. O que existe é um padrão: denúncias arquivadas, processos internos que não avançam, PMs com histórico violento que permanecem nas ruas — e dentro de casa.
O sistema que falha duas vezes
Michele era capitã. Comandava equipes. Tinha poder dentro da corporação. Mesmo assim, não escapou. Se uma oficial de alta patente não teve proteção, o que esperar das civis comuns?
Os dois BOs anteriores contra o suspeito deveriam ter sido um alarme. Não foram. A Polícia Militar não afastou o agente. Não recolheu sua arma. Não o monitorou.
"Violência doméstica não é caso isolado. É padrão de comportamento. Quem agride uma vez, agride de novo" — especialista em segurança pública ouvida pela investigação
A conta que ninguém fecha
Enquanto isso, deputados e senadores debatem reajustes. O salário base de um parlamentar em 2026 pode chegar a R$ 45 mil, segundo projeções. Um PM que mata recebe auxílios, adicionais, gratificações. Mesmo preso, tem direitos.
Michele não tem mais nada. Duas famílias destroçadas. Um histórico ignorado. Um sistema que escolhe não ver.
A Polícia Civil investiga. O inquérito corre em sigilo. O PM permanece preso preventivamente. As respostas, como sempre, demoram. As perguntas, não.