Pobres no escuro: quem lucra com apagão em Brasília?
Sete horas sem energia elétrica. Das 9h às 16h desta terça-feira (21/7), milhares de moradores de Planaltina, Fercal, Samambaia e Paranoá — as regiões mais pobres do Distrito Federal — ficarão no escuro.
Lago Sul? Lago Norte? Asa Sul? Funcionando perfeitamente.
A Neoenergia Brasília, concessionária que fatura R$ 3,2 bilhões anuais no DF, chama isso de "manutenção programada". Os moradores chamam de descaso geográfico.
O Mapa da Desigualdade Elétrica
Não é coincidência. As áreas atingidas concentram 68% da população de baixa renda do Distrito Federal. Renda média: R$ 1.890 mensais. Enquanto isso, o Lago Sul — intocado pelos cortes — ostenta renda média de R$ 18.400.
A empresa alega necessidade técnica. Mas os números contam outra história:
- Planaltina: 12 interrupções programadas em 2024
- Samambaia: 9 cortes de energia no ano
- Lago Sul: 1 interrupção (madrugada, 2 horas)
- Asa Sul: zero cortes programados
Pobre fica sem geladeira funcionando. Rico nem percebe que há manutenção na rede.
Quem Manda na Neoenergia
A Neoenergia pertence ao grupo espanhol Iberdrola, que controla 39% das ações. O restante? Fundos de pensão brasileiros — Previ (Banco do Brasil), Petros (Petrobras) e Funcef (Caixa Econômica).
Tradução: dinheiro público de aposentados financia uma empresa que trata periferia como segunda classe.
O chairman no Brasil é Mário Luiz Kruger, ex-diretor da Eletrobras. Salário estimado: R$ 2,3 milhões anuais. Ele não fica sete horas sem ar-condicionado quando o DF marca 32 graus.
O Jogo Político Por Trás do Apagão
Brasília é território fértil para herdeiros políticos. O governador Ibaneis Rocha (MDB) vem de família tradicional goiana com ramificações no DF. Seu vice, Paco Britto, é filho do ex-deputado federal homônimo.
A Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), que deveria fiscalizar, é comandada por Sandoval Feitosa — indicado político com passagem por seis diferentes partidos.
Ninguém questiona por que Planaltina sofre 12 vezes mais que o Lago Sul. Ninguém pergunta se há critério técnico ou apenas conveniência operacional.
"Meu filho tem asma. Sem energia, não consigo ligar o nebulizador. Mas para eles, somos invisíveis." — Relato de moradora de Samambaia ao Metrópoles
O Custo Real do Apagão
Sete horas sem luz significam:
- Comida estragada em geladeiras (prejuízo médio: R$ 180 por família)
- Impossibilidade de trabalho remoto
- Crianças sem aula online
- Pequenos comerciantes fechando portas
Enquanto isso, a Neoenergia registrou lucro líquido de R$ 487 milhões no último trimestre. Alta de 23% sobre o ano anterior.
Pobreza e privilégio separados por 20 quilômetros e uma decisão de quem cortar.
A Conta Que Não Fecha
Há manutenção necessária? Certamente. Mas por que sempre nas mesmas regiões? Por que nunca nos bairros onde moram deputados distritais, desembargadores e empresários?
A resposta é simples: porque eles reclamariam. E reclamação de rico vira processo, vira pressão, vira manchete.
Pobre apenas fica no escuro. E volta a pagar a conta de luz no dia seguinte — a mais cara do país, aliás, com tarifa média de R$ 0,89 por kWh.
Brasília, a capital da República, segue provando que há cidadãos de primeira e de segunda classe. A diferença agora é medida em quilowatts.