Praias privadas: enquanto bilionários lucram, povo paga
R$ 15 para pisar na areia. R$ 30 para chegar na cachoeira. Enquanto o brasileiro comum desembolsa entrada para acessar o que deveria ser de todos, os donos de resorts de luxo e empreendimentos turísticos — muitos deles figurando no ranking de bilionários do Brasil — enchem os bolsos.
Um projeto de lei em tramitação no Congresso Nacional quer acabar com essa farra. O texto proíbe qualquer cobrança para acesso a praias e cachoeiras públicas em todo território nacional.
A proposta é simples: o que é público tem que ser gratuito. Ponto final.
O Negócio Bilionário das Cercas Invisíveis
O turismo de natureza movimenta bilhões no Brasil. E parte dessa fortuna vem de um truque antigo: cercas, portões e guaritas estrategicamente posicionados para transformar bem público em produto privado.
Resorts de luxo controlam acessos a praias paradisíacas. Fazendeiros cobram para você passar pela propriedade deles até a cachoeira que não pertence a ninguém. Condomínios de alto padrão tratam faixas de areia como quintal particular.
Os números não mentem. Segundo levantamento do setor, empreendimentos turísticos em áreas naturais faturaram mais de R$ 8 bilhões apenas em 2023. Boa parte desse dinheiro saiu do bolso de famílias que pagaram para acessar o que já era delas por direito.
Serviços Sim, Entrada Não
O projeto não é radical. Ele preserva a cobrança por serviços facultativos — estacionamento, guias, estrutura de apoio. Quer usar o vestiário? Pode pagar. Precisa de salva-vidas particular? Tranquilo.
A proibição é específica: ninguém pode cobrar pelo simples ato de entrar, de passar, de existir naquele espaço natural.
Unidades de conservação continuam podendo cobrar quando houver autorização legal específica. Parques nacionais, por exemplo, seguem com suas regras próprias.
Quem Ganha e Quem Perde
De um lado: proprietários de terra, grupos hoteleiros de luxo, investidores do turismo de elite. Gente acostumada a transformar natureza em commodity.
Do outro: os 210 milhões de brasileiros que teoricamente são donos daquelas praias, daquelas cachoeiras, daqueles rios.
A briga é velha. A Constituição Federal já diz que praias são bens públicos. Mas entre a letra da lei e a prática existe um oceano de diferença — e muito dinheiro no meio.
O Preço da Democracia Natural
Cinco famílias do ranking dos bilionários brasileiros têm fortunas diretamente ligadas ao setor hoteleiro e turístico. Seus patrimônios somados ultrapassam R$ 40 bilhões.
Não que todos explorem acesso a praias ilegalmente. Mas o modelo de negócio depende de exclusividade. E exclusividade em espaço público sempre levanta questões incômodas.
O projeto agora precisa passar por comissões e votações. Pode levar meses. Pode levar anos. Pode morrer no caminho, como tantos outros.
Enquanto isso, neste fim de semana, milhares de brasileiros vão abrir a carteira para pisar na areia que, teoricamente, já era deles.
A natureza é de graça. O acesso a ela, ainda não.