Preta Gil vira símbolo: missa na Bahia expõe poder da família Gil

Preta Gil vira símbolo: missa na Bahia expõe poder da família Gil
Foto: revistaquem.globo.com

Um ano depois da morte de Preta Gil, a máquina se move. Não uma missa qualquer — duas. Rio e Bahia. Santuário nacional. Padre famoso. A pergunta que ninguém faz: quantas famílias brasileiras conseguem isso?

A resposta é simples: poucas. Muito poucas. E a família Gil é uma delas.

O peso de um sobrenome

Enquanto brasileiros comuns lutam por um velório digno no SUS, a filha de Gilberto Gil ganha cerimônia no Santuário Santa Dulce dos Pobres, em Salvador, às 16h desta segunda (20). Aberta ao público, claro — mas organizada pelo produtor cultural Geraldo Baddá, com apoio da família Gil e parceria com as Obras Sociais.

No Rio, a primeira missa aconteceu na Paróquia Santa Mônica, no Leblon. Bairro onde o metro quadrado passa de R$ 15 mil. Amigos, familiares, gente importante. O Brasil das elites prestando suas homenagens.

Preta morreu de câncer de intestino, no Dia do Amigo. Tinha 50 anos. Deixou uma fortuna estimada em milhões — cifra nunca divulgada oficialmente — e um legado que transcende a música.

Dinastias que não morrem

A história do Brasil é escrita por dinastias. Políticas, empresariais, artísticas. Os Gil pertencem a todas essas categorias simultaneamente.

Gilberto Gil não é apenas músico. Foi Ministro da Cultura. Transitou entre governos. Construiu pontes onde outros ergueram muros. E seus filhos herdaram não apenas o talento — herdaram o sobrenome, a rede de contatos, o capital social.

Preta Gil converteu esse patrimônio invisível em carreira. Cantora, apresentadora, influenciadora digital antes do termo existir. Faturava com publicidade, shows, parcerias comerciais. Seu Instagram tinha 10 milhões de seguidores — cada post valia entre R$ 200 mil e R$ 500 mil, segundo estimativas do mercado.

Santa dos pobres, missa dos ricos

O Santuário Santa Dulce dos Pobres carrega ironia no nome. Santa Dulce dedicou a vida aos miseráveis. Morreu sem nada. Foi canonizada em 2019 — a primeira santa nascida no Brasil.

Agora seu santuário sedia homenagem a uma mulher que jamais conheceu pobreza. Não é crítica à Preta — é constatação do sistema.

O Padre Fred, que presidirá a cerimônia, é figura conhecida. Tem programa de televisão. Livros publicados. Presença nas redes sociais. É o padre das celebridades, não o padre das periferias.

O que fica

Preta Gil merece ser lembrada? Sim. Teve talento? Também. Mas a arquitetura da homenagem revela mais sobre o Brasil do que sobre ela.

Revela que existem brasileiros de primeira classe — aqueles cujas mortes mobilizam santuários nacionais — e brasileiros de segunda, terceira, décima classe. Aqueles que morrem anonimamente, enterrados em covas rasas, esquecidos antes mesmo de virarem lembrança.

A família Gil construiu um império. Gerações de artistas, políticos, formadores de opinião. Preta era peça desse tabuleiro. E mesmo na morte, o jogo continua.

Porque no Brasil das dinastias, nem a morte democratiza.

Isabela Guimarães Coutinho

Isabela Guimarães Coutinho

Editora de perfis. Escreve retratos de personagens do poder — do bilionário ao aliado invisível do Planalto.