Projeto blinda herança de idosos ricos em novo casamento

Projeto blinda herança de idosos ricos em novo casamento
Foto: Congresso em Foco

Enquanto o brasileiro médio luta para juntar R$ 100 mil na vida inteira, o Congresso Nacional se debruça sobre um problema bem diferente: como proteger as fortunas de quem casa depois dos 70 anos.

Um projeto de lei em tramitação quer fixar a separação obrigatória de bens para casamentos envolvendo pessoas acima dessa idade. O texto incorpora ao Código Civil uma decisão do Supremo Tribunal Federal que afastou a obrigatoriedade anterior — mas agora os parlamentares querem trazer a regra de volta, com força de lei.

Traduzindo: se você tem 71 anos e quer casar, seu patrimônio fica blindado. Nada do que você construiu vai para o cônjuge em caso de separação ou morte.

O clube dos bilionários preocupados

A proposta interessa especialmente a um grupo seleto: herdeiros políticos Brasil e famílias tradicionais que controlam impérios empresariais. Gente que viu fortunas sendo divididas em segundos ou terceiros casamentos de patriarcas.

No Brasil, as 50 famílias mais ricas do país somam mais de R$ 500 bilhões em patrimônio. Muitos desses clãs já viram disputas judiciais milionárias quando um membro mais velho resolve refazer a vida.

O projeto funciona como um seguro. Protege quem tem muito a perder.

STF abriu a porteira

O Supremo havia derrubado a obrigatoriedade da separação de bens, argumentando que a regra era paternalista. Afinal, por que um adulto capaz não poderia decidir livremente sobre seu casamento?

A decisão soou como música para românticos. Mas como sirene de alerta para advogados de família e herdeiros.

Agora, o Congresso quer dar a última palavra. E a palavra é: não.

Quem ganha, quem perde

Os defensores da proposta argumentam que idosos ficam vulneráveis a "golpes do baú". A imagem clássica: jovem interesseira seduzindo senhor rico para ficar com a herança.

Os críticos veem discriminação etária. Por que alguém perde o direito de escolher o regime de bens só porque fez 70 anos?

Mas o debate real não é sobre amor ou liberdade. É sobre dinheiro. Muito dinheiro.

"A separação obrigatória protege não apenas o idoso, mas toda a família que construiu patrimônio ao longo de gerações", argumentam juristas ligados a grandes fortunas.

O mapa da mina

Basta olhar quem apoia a iniciativa. Escritórios de advocacia especializados em grandes fortunas. Associações de planejamento patrimonial. Entidades que representam famílias empresárias.

Do outro lado, quase ninguém com poder de fogo equivalente.

A conta é simples: quantos brasileiros casam depois dos 70 com patrimônio relevante a proteger? Pouquíssimos. Quantos têm lobby organizado em Brasília? Todos eles.

A fila anda

O projeto tramita em regime de relativa discrição. Não é manchete. Não mobiliza redes sociais. Não gera passeata.

Exatamente o tipo de tema que avança no Congresso sem fazer barulho — até virar lei.

Enquanto isso, para os 99% dos brasileiros que nunca terão esse "problema", resta assistir de camarote a mais um capítulo da novela: como os muito ricos protegem o que é muito deles.

O amor pode não ter idade. Mas o patrimônio, ao que tudo indica, terá.

Fernando Andrade Villela

Fernando Andrade Villela

Investigador financeiro. Cobre offshores, patrimônio declarado vs. real, e o cruzamento entre política e mercado.