Projeto de lei quer até 8 anos de prisão para quem espiar juiz

Projeto de lei quer até 8 anos de prisão para quem espiar juiz
Foto: Congresso em Foco

Enquanto você é multado por estacionar no lugar errado, facções criminosas usam drones e rastreadores GPS para vigiar juízes, promotores e delegados. A brincadeira pode estar com os dias contados.

Um projeto de lei que tramita na Câmara quer transformar a espionagem de policiais e magistrados em crime federal. Pena: até 8 anos de prisão.

O autor é o deputado Delegado Ramagem (PL-RJ), ex-diretor-geral da Abin com cacife no mundo da segurança. Ele não está inventando moda: segundo o parlamentar, organizações criminosas já monitoram autoridades para planejar ataques, intimidação e até execuções.

O que está em jogo

O projeto inclui na Lei de Organizações Criminosas um novo crime: espionagem contra agentes de segurança pública e membros do Judiciário.

Quem usar equipamentos eletrônicos, rastreadores ou drones para vigiar essas autoridades pega de 4 a 8 anos de reclusão. Simples assim.

A justificativa é direta: facções descobriram que tecnologia barata pode render informação cara. Um rastreador magnético custa R$ 300 no Mercado Livre. Um drone com câmera 4K, menos de R$ 2 mil. O endereço de um desembargador? Impagável.

Brasília e o jogo de poder

A proposta chega num momento específico. Brasília vive sob tensão crescente entre Poderes, com embates entre STF, Congresso e Executivo marcando a agenda diária.

Proteger magistrados significa proteger decisões. E decisões, em Brasília, movimentam bilhões.

Ramagem conhece o terreno. Foi chefe da Abin durante o governo Bolsonaro, período marcado por denúncias de espionagem ilegal de adversários políticos. Agora propõe punir justamente isso — mas só quando as vítimas vestem toga ou farda.

A ironia não passou despercebida.

Como funciona a espionagem real

Técnicas usadas por facções, segundo investigações policiais:

  • Rastreadores GPS instalados embaixo de carros de autoridades
  • Drones sobrevoando residências de juízes para mapear rotinas
  • Monitoramento de redes sociais para identificar locais frequentados
  • Infiltração de informantes em condomínios e estabelecimentos

O mercado de vigilância clandestina movimenta fortunas. Empresas israelenses vendem spyware por milhões de dólares para governos. Criminosos compram versões mais simples por centavos.

A diferença é o alvo. E o tamanho da conta bancária de quem compra.

Quem ganha com isso

Se aprovado, o projeto beneficia diretamente uma categoria que já desfruta de foro privilegiado, auxílios generosos e esquemas de segurança robustos: magistrados.

Policiais também entram na proteção. Mas enquanto juízes ganham mais de R$ 30 mil mensais, PMs da base recebem salários que mal ultrapassam R$ 4 mil em vários estados.

Todos iguais perante a lei. Alguns mais iguais que outros.

O cidadão comum, espionado por big techs, operadoras e até pelo próprio governo através de ferramentas como reconhecimento facial, continua sem proteção equivalente.

Ramagem não propôs pena de 8 anos para quem vende seus dados no mercado negro.

O que vem agora

O projeto aguarda análise nas comissões de Segurança Pública e Constituição e Justiça. Se aprovado, segue para o Senado.

Dificilmente encontrará resistência. Afinal, quem votaria contra a própria segurança?

Em Brasília, poder e dinheiro andam de mãos dadas. E ambos preferem não ser vigiados.

Fernando Andrade Villela

Fernando Andrade Villela

Investigador financeiro. Cobre offshores, patrimônio declarado vs. real, e o cruzamento entre política e mercado.